Sonha pra me fazer sonhar

Eu sonhei que tu estavas tão linda… Aliás, teria sido eu mesmo a sonhar? Difícil crer, pois dormir sob a magnificência do som da Sala São Paulo é certamente impossível. Então, se não era eu…
Ah, São, São Paulo, meu amor, conduzido pelas mãos do Chico, nascido pra te declamar, quem sonhou, mesmo, foi meu coração! Certamente um de teus mais importantes filhos, o saudoso Zerbini, realmente Doutor, se consultado profissionalmente, diria que coração sonhador é coisa de poetas, namorados, seresteiros, mas, se surpreendido num de seus momentos vagantes pela poesia, namorando ou serestando, esse teu romântico grande filho certamente pediria silêncio, em nome de seu próprio coração.
E estava mesmo tão bonita… Era tudo o que eu queria ver. Eu e toda a Sala São Paulo, que estremeceu aos primeiros acordes de uma Sinfônica Jovem que provou não ter idade a arte, mas sim eternidade. E os aplausos vieram em turbilhão, nem precisando o Chico pedir. E por falar em Chico…
O que foi o Chico, ontem? Um apresentador, mestre de cerimônia, primeiro regente? Nada! Chico foi um amante, a tornar pública sua paixão. Contrariando o lema da homenageada, o non ducor…, Chico se deixou conduzir. Os espectadores mais sensíveis até perceberam em suas palavras a obediência a um regular ritmo sinusal, na mais efetiva das provas de que quem as conduzia era mesmo seu paulistano coração. E por falar em paulistano…
Quando, ao apresentá-la, Chico retratou a vida da tao querida Claudya – carioca, criada em Minas, paulistana por opção – não estaria ele também se auto-retratando, eis que gaúcho, amineirado pela infância, mas apaulistanado pela paixão? Os mesmos sensíveis aí de cima nem precisam da resposta!
Ah, noite inesquecível. Não sei se lá fora o mesmo ainda acontecia, mas a tênue luz da Sala São Paulo, parecia reproduzir o anoitecer, aquele momento em que o Sol se põe, apresentando a noite. Hora em que os contra-regras, os Anjos de Deus, mudam o cenário. Hora em que, até mesmo antes da Lua, dando vida ao firmamento surge ela, a primeira estrela, a Dalva. E em meio ao esplendor de nosso imaginário anoitecer, no palco da Sala São Paulo, Peri Ribeiro desponta.
Provando ser São Paulo a tribo de todas as tribos, é mais um carioca que se fez paulistano que agora entra em cena. � Peri, obra prima de Herivelto Martins que, assim como Ave Maria no Morro e Praça Onze tornaram-se citações obrigatórias, indeléveis na História da MPB.
Com seu ar de bom moço, uma eterna juventude que lhe protege o rosto e uma voz que nos encanta a alma, ele fala, ri, conta, canta e nos afirma sambistas, a todos nós, paulistanos e paulistas, reconhecendo-nos pais adotivos da bossa-nova, co-responsáveis por sua boa formação.
E tinha mais: não sei se foi bem assim – até mesmo reconheço que não foi – mas bem que poderia ter sido desta forma a apresentação do furacão Jair Rodrigues: Agora, prepare o seu coração, pras coisas que ele vem cantar. Ele vem lá do sertão, onde já foi boi, se montou, cavalgou, cavalgou e se fez rei: rei do palco, rei da cena, rei da Alegria. Cessa tudo quando a antiga musa canta, pois um grande vendaval se alevanta e Jair adentra o palco e… deixe que digam, que pensem, que falem; ele quer é fazer seu povo feliz!
Se a noite já era de prazer, se ali já reinava a Alegria, imagine agora! De uma ponta à outra do palco, correndo, pulando, girando, ele traz à memória dos mais vividos o bicho-carpinteiro das duras, mas saudosas reprimendas. Jair não tem parada: é a configuração humana da Cidade homenageada. E canta…
A potência de sua voz, por si só já bastaria para preencher toda a Sala São Paulo de música, mas como essa noite tem que se tornar inesquecível, Jair se faz acompanhar de extraordinário e competente grupo musical. Bastante? Ainda não: Caio se comprometeu com a Felicidade e para isso não negaceia: mandou vir também o Branco e Preto, maravilhoso quinteto musical, que de suas cores vai extrair todas as outras e com elas fazer do palco um arco-íris. E Jair canta…
É hora de a surpresa também marcar presença. E vem para ser grata, agradável e por que não? Surpreendente. Uma surpreendente surpresa, revestida da mais bela beleza, a nos trazer a mais certa certeza de que o samba paulistano vive e também reina no meio da MPB. É hora do samba brasileiro, de uma face só, de uma cultura única, sem cor, fronteira ou raça. Samba como deve ser cantado.
Diva, deusa, rainha, seja qual for o epíteto que ela venha a conquistar, Fabí, Acima de Tudo Mulher, haverá de brilhar. Que pena não possuir a intimidade que o carinhoso diminutivo aplicado a seu nome pode sugerir. Se assim fosse, poderia reverenciá-la a cada momento e, se ela me permitisse, beijar-lhe as mãos, pois não é assim que se procede na presença de uma diva, deusa ou rainha? Elis, Maria Creuza e Clara Nunes – anjos-estrelas do coral de Deus – vêm se juntar a Alcione e a Beth Carvalho, fundindo vozes e estilos para nos premiar com Fabiana Cozza. Ah, fulgurante Fabiana, que bom que agora você resolveu sair dos círculos musicais mais “herméticos” e se popularizar. O Brasil já te agradece!
Poderia muito bem acabar aí a noite, tão singela e harmoniosamente construída pela Camila, pelo Renato, pela Solange e tantos outros incógnitos operários da arte, que sob o comando do Caio produziram uma das mais tocantes noitadas das artes paulistanas. No mais amplo dos sentidos! Mas qual!…
Ainda nos fariam ver brilhar no alto do céu da Sala São Paulo a deslumbrante Bruna Lombardi a derramar saudades sobre uma encantada platéia. Platéia esta onde divinos imortais dividiam por igual o espaço com seus adoradores. E eram tantos, que na falta de linhas peço licença para citar apenas um, cujo quilate dimensiona a importância da noite: Paulo Vanzolini, que, chamado ao palco, dividiu acalorados aplausos com Billy Blanco, outro anjo sagrado, também já há tempos adentrado na casa dos oitenta anos de idade, graças a Deus!
Não seria justo, por fim, não registrar no mesmo álbum da memória a Sinfônica Jovem, o Arte Viva, o Alex Cohen, este um devotado sacerdote da oração jovem, posta em melodia.
Mas o Mundo foi rodando e o tempo com ele caminhando. Hora de ir. Já se aproximavam as doze badaladas e para que não se quebrasse o encanto, antes que a carruagem voltasse a ser abóbora e eu despertasse deste sonho que quero sonhar pelo tempo que ainda vier a viver, braço dado à minha filha, Ali, me retirei. Vambora, vambora, que o Cometa não espera e se perco o das 12h30, só amanhã de manhã eu volto pra São João da Boa Vista, para onde me mudei.
E pra matar as saudades da Felicidade que juntos passamos, resolvi perpetrar esta ode, poesia, poema – tudo isso ou nada disso, sei lá. Enfim, esse texto monstrengo, sem métrica ou estilo, mas que leva tinta extraída da alma.

Sonhei que eu era um dia um trovador
e te cantava em �ria, prosa e verso.
Declarava aos quatro cantos meu Amor,
fazendo-me ouvir por todo o Universo.

Velhos tangos e canções então busquei;
Até samba fui aprender, pra te agradar.
Fui teu servo, e tu de mim fizeste rei;
amado amante � e eu buscava só te amar!

Nunca me pediste algo em paga
pelo tudo que me deste, vida afora.
Se te magôo, ainda vens e me afaga
e teu regaço me oferece a qualquer hora.

Agora, ainda por fim me põe pra cima
me faz página de um livro, todo seu;
um marco de tua História, obra-prima,
onde constar, meu texto nunca mereceu.

E a mim, prostrado, zonzo ante tanto Amor,
em mais um ato de tão vil lesa-cultura,
me arrogo o direito de, como “escritor”,
terminar como comecei esta aventura:
sonhando ser um dia um trovador,
para poder retribuir-te tanta ternura.

Desculpe-me, São Paulo, mas foi por Amor!

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