Sogra

Nossa Senhora do Perpétuo Socorro. Igreja quase lotada. Flores brancas em abundância decoravam a passarela carpetada de vermelho. Os padrinhos em gala, estagnados no altar em compasso de espera. Dois casais para a noiva e mais dois casais de padrinhos para o noivo. Foi difícil entender o porquê de dois casais de padrinhos para cada lado, mas minha futura sogra foi perita em convencer-me dessa assombrosa necessidade. <br><br>O burburinho inquieto dos convivas começara a ganhar volume. O "grande" evento estava prestes a acontecer. Tudo pronto para o casamento. A fé ignora a pressa. Então vamos esperar. Para completar a cena no altar lá estava eu, olhando aos quatro ventos, impaciente, trajando um fraque alugado e simplesmente ridículo, mas foi escolhido e aprovado pela futura sogra. <br><br>Eu era o noivo… A noiva, como costuma acontecer, estava atrasada. Os olhares dos presentes pareciam estar assistindo a uma partida de tênis; conferiam o altar e a porta da Igreja. Afinal, vamos ou não vamos? Os dedos dos organistas, no ar, esperavam o sinal para atacar na marcha nupcial. <br><br>Eis que, na porta da Igreja, surge a noiva acompanhada de seu pai. Vestido longo, branco, imponente. O véu impedia seu belo rosto à vista dos convidados. Depois de alguns minutos ali na espera, os olhares se concentraram para o altar a procura do padre. Foi uma grande fermata. Se existissem moscas poderíamos ouvir seu bater das asas. Silêncio. Alguns minutos mais e fez-se ouvir o “zum-zum” dos presentes. A cena tornou-se séria, mas logo em seguida pequenos risos começaram a espocar tomando conta do recinto. Mas cadê o padre? Comecei a sentir o meu fraque ficar mais apertado no corpo. Minhas mãos começaram a suar. Um dos padrinhos fez-me um gesto com os ombros. Não tive dúvidas. Segui para a sacristia. Lá estava o padre conversando com alguém. Ele não gostou da minha cara. Trocamos algumas palavras não tanto sociais. Apesar de parte da minha educação ter sido ministrada por salesianos, nunca tive sorte com padres. Juntou sua branca indumentária e seguiu para o altar.<br><br>A noiva, ao som de Mendelssohn, começou a caminhar em direção ao altar. Dez minutos mais tarde estávamos casados. Foi ofertado bolo e champagne aos 520 convidados no salão de festas anexo à Igreja. Marca da champagne, qualidade do bolo e demais salgadinhos; tudo foi detalhadamente escolhido e aprovado pela sogra. Até como cortar o grande bolo teve a produção e direção da sogra. O champgne foi servido na conformidade e ordem, pré-programada pela sogra. Em dado momento, ouviu-se um forte tilintar em um dos cristais. Era a sogra que chamara à atenção dos convidados para agradecer a presença de todos. Se eu fosse avestruz, aquele seria o momento para eu enfiar a cabeça na areia.<br><br>Um Ford-Galaxy branco de um dos padrinhos nos levou para casa. Trocamos de roupa para seguir para lua-de-mel. Procurei pelas chaves do meu carro. Não encontramos. Depois de muitas horas, ficamos sabendo que as chaves estavam na bolsa da sogra. Ela deveria ser a primeira a se despedir. Retendo as chaves do carro ela teria certeza disso. Infelizmente, não havia celular e a comunicação seguia ao compasso da época. <br><br>Quatro anos mais tarde, a contar daquela tarde na Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, nos divorciamos. Tivemos um casal de filhos. A única coisa que a sogra não participou ou dirigiu foi na concepção dos filhos. Isso se deve à minha acurada atenção na hora de dormir. Toda separação, eu assumo, é terrível e não há ganhadores com exceção da minha sogra. Ela venceu todas. <br><br><br>E-mail: [email protected]