Sobe e desce da bolsa

Trabalho em um lugar de grande assédio público. Circulam por ali, talvez, uns cinco milhares de pessoas por dia. Portanto, é natural que eu veja de tudo. Todos os tipos da flora e fauna humana, todas as tribos. Gente de todo jeito. Gente de todo tipo. Descolados, tatuados, carecas, caretas, gays, lésbicas, simpatizantes, odiantes, intelectuais, intelectualóides, idiotas, mauricinhos, patricinhas, sertanejos, jagunços, etc. Até gente normal passa por ali.<br><br>E de tanto passar gente de diferentes espécies, a gente acaba nem tomando nota mais. Nem observa tamanha diversidade. Já virou normal.<br><br>Mas certas coisas, às vezes, ainda acaba nos chamando a atenção. Uma delas, por exemplo, é a incidência de certos tipos de roupas e de determinados objetos de marcas específicas. Ultimamente, tenho notado algumas marcas estampadas nas camisetas dos jovens. Tenho visto que eles preferem uma ou outra marca, ou melhor, grife, para se dizerem cult, ou in com a moda, ou melhor, com as tendências. Então, acabo percebendo uma predominância de certos tipos de tênis e agasalhos esportivos, por exemplo. São aquelas marcas bastante difundidas mundo afora.<br><br>Outro dia, inclusive, presenciei dois adolescentes comentando sobre o tênis que um outro garoto estava usando. Um disse ao outro que "o cara não tava com nada – aquele tênis que ele usava era um modelo de 2003". E eu que nem sabia disso. Achava que esse negócio de modelo só servia mesmo era pro mercado de automóveis e pra safra de vinho.<br> <br>Mas mais curioso ainda, talvez, seja a quantidade de falsificações dessas marcas famosas. Eu mesmo, em verdade, não consigo distinguir o falso do verdadeiro. Talvez pelo meu despreparo técnico e minha falta de conhecimento desses produtos, ou talvez porque os falsificados sejam tão bem feitos que não dê pra gente, reles mortais consumidores, conseguir diferenciá-los.<br><br>Mas uma amiga, que também trabalha no mesmo local que eu, nunca se engana. É impressionante sua capacidade avaliadora do que é verdadeiro e falso. Só de bater o olho já sabe se o produto é autêntico ou não. Ela tem um apurado faro pra coisa. Coisas que ela diz serem falsas eu posso jurar que seriam verdadeiras. Mas mulher é mulher. Elas têm essa capacidade aguçada. Não só por serem consumidoras ao extremo, como por sempre se apegarem a detalhes que passam despercebidos a qualquer um.<br><br>Querem um exemplo? Outro dia passou por nós uma mulher de cerca de quarenta e poucos anos – daquelas que, no passado, denominaríamos de madame e hoje são as chamadas perua. Carregava, na minha modesta e humilde opinião, uma vistosa bolsa Louis Vuitton, daquelas características Louis Vuitton, nas suas tradicionais cores marrom e creme, cheia da logomarca LV em toda sua superfície. Carregava a bolsa com toda a pompa exigida, entrelaçada em seu braço, de forma a ficar visível a todos que a olhassem. E a tal perua subia e descia a escada rolante, como que querendo se mostrar pra todo mundo.<br><br>Compunha ainda seu visual uns enormes óculos escuros – isso porque o ambiente é fechado, sem luz do sol -, quase a esconder toda a face. Só se viam os óculos. Nada de rosto. E ainda, como se não bastasse, o que também chamava a atenção era o par de brincos, que fariam inveja aos balangandans da nossa querida Carmem Miranda.<br><br>Mas, voltando ao alvo das nossas atenções, minha e de minha amiga, como disse, a bolsa pra mim era uma autêntica Louis Vuitton. Já minha amiga, na sua apurada e aguçada observação, jurava de pé junto que não era. Era sim uma cópia, um genérico chinês, daqueles ainda muito do mal feito. Uma verdadeira e autêntica cópia Luiz Vitão. Eu, cá com meus botões, pensei em como podia minha amiga ter tanta convicção. Mas acabei aquiescendo da opinião dela. Nada melhor que uma mulher pra conhecer essas coisas do universo feminino.<br> <br>Bem, mas se a bolsa era uma Luiz Vitão e não uma Louis Vuitton, pra mim pouco ou nada importava. Importava sim que no contexto geral do visual perua daquela mulher, tudo ali estava ornando. Tá certo que até parecia um pouco alegoria de desfile de escola de samba. Parecia uma roupa mais adequada ao baile do Monte Líbano vestida por Clóvis Bornai. Mas e daí? Cada um é cada um, e com bolsa falsa ou não, a moça estava se achando…<br><br>Mas por falar de bolsa que sobe e desce, acabei mesmo é de me lembrar da minha vizinha: uma simpática senhora de seus sessenta e poucos anos, Dona Alice. Essa não é perua, não. Lembrei dela porque com tanto movimento oscilatório da bolsa de valores, da Bovespa, nesse sobe e desce, mais desce que sobe, dos últimos dias, a Dona Alice, entrou em pânico.<br><br>Ela, que a uns seis meses atrás, de tanto ouvir que a bolsa estava batendo recordes diários de valorização, resolveu tirar todo o dinheiro do seu marido, o Seu Abelardo, da poupança, e entrar também nessa onda. Detalhe: sem Seu Abelardo saber. Aliás, como sempre, o marido é o último a saber. Aí está a confirmação do velho ditado.<br><br>Dona Alice, me vendo chegar em casa, correu ao meu encontro pra exatamente me pedir um conselho sobre o que fazer com sua aplicação. Francamente, não gosto de dar conselhos. Não gosto de me meter na vida de ninguém. Primeiro que, se conselho fosse bom não se dava… se vendia. Segundo, que não consigo nem resolver os meus problemas, quanto mais resolver os dos outros. E terceiro, especialmente nesse caso da Dona Alice, não gosto de me meter em assuntos de marido e mulher.<br><br>Mas o desespero da Dona Alice com as últimas quedas da bolsa – que por sinal nem é uma Louis Vuitton e tampouco uma Luiz Vitão – era tanto, que não me eximi de lhe dar alguns palpites.<br><br>Primeira questão: Dona Alice me perguntou se deveria tirar o dinheiro da aplicação em ações. Eu lhe respondi, usando a grande filosofia do meu amigo Marquinho do Sul de Minas, quase da mesma cidade do marido da Dona Alice, Bambuí. Segundo o Marquinho, o que é mesmo um peido pra quem já tá mesmo cagado. Desculpem prezadas madames e peruas de plantão, mas o meu amigo Marquinho é assim mesmo: desbocado e direto. Então, inspirado nesse profundo pensamento do Marquinho, recomendei a Dona Alice que deixasse o dinheiro lá mesmo, pois a tendência agora seria de retomada da valorização.<br><br>Segunda questão: Dona Alice estava aflita, pois não tinha falado pro marido que tinha sacado o dinheiro todo da poupança de toda uma vida e colocado naquela aplicação que, por ora, se mostrava de alto risco, quase virando farelo de soja. Bem, eu disse a Dona Alice que se mantivesse quieta sobre o assunto. E se por acaso, o linguarudo do gerente do banco onde eles mantêm a conta batesse com a língua nos dentes e contasse tudinho pro Seu Abelardo, ela poderia dizer que havia transferido todo o dinheiro pra uma conta na Suíça, e que havia comprado tudo em queijo.<br><br>Como Seu Abelardo, como bom mineiro da terra do meu amigo Marquinho, é um grande apreciador de queijos, acho que ele não ia ficar muito zangado não. Afinal, se ele gosta de queijo de Minas, não vai gostar de queijo Suíço?<br><br>Mas, Dona Alice, se essa desculpa não pegar, a senhora pode dizer ao Seu Abelardo que gastou o dinheiro comprando bolsas Louis Vuitton, mas que, infelizmente, com a perícia técnica, a senhora descobriu que eram Luiz Vitão, e pra vocês, a senhora e seu marido, não serem presos, a senhora acabou jogando tudo no lixão da prefeitura. Afinal, como diz meu amigo Marquinho…, o que é um p…<br><br>e-mail do autor: [email protected]