Em Encontro Marcado, Fernando Sabino fala de um apontamento com seus amigos mineiros, para uma data no futuro. Mas aqui volto ao passado, para lembrar que, se havia algum lugar para encontros marcados, na São Paulo dos anos 60, esse era debaixo do relógio do Mappin, na Praça Ramos.
Quem não já ali esteve, sentindo o pulsar do coração, coincidindo com o estalar dos ponteiros? Para encontrar a mulher de seus sonhos ou apenas uma miragem ilusória, ou mesmo – bem soube – estava num encontro às cegas, e acabava fugindo, ao ver que não era bem aquilo que esperava?
O relógio ocupava-se apenas em marcar as horas, e em nada se alterava pelas emoções dos encontros e desencontros bem debaixo de seu nariz, se nariz tivesse.
Ficava-se ali, sempre em ansiedade: “Ela está demorando!”. E aproveitava-se para, ao abrigo das marquises, dar uma conferida nos últimos lançamentos de consumo, ainda mais na época da esperada liquidação: “Venha correndo, Mappin!”. Ele, o Mappin, sabia que um dia isso ia se acabar.
Mas, para ser sincero, comigo ocorreu uma única vez esse tipo de encontro. Cenas de um calendário desbotado, outro século, outro centro, outra mulher, tudo levado pelo mesmo tempo que o relógio assinalava. Eu também era outra pessoa.
Tudo rodava, como um carrossel tresloucado, muito rapidamente. Desloquei-me também para outras áreas, inclusive sentimentais, movido agora a automóvel, movido agora a jato. Para longe, cada vez mais longe do Mappin.
O relógio, no entanto, permaneceu. Embora creia que, agora, pouca gente lhe dê atenção. E nem marque encontros; os muitos trabalhadores que ainda passam pelo centro estão mais preocupados em sair dali depressa, pressionados por outra população, bem mais esquecida pela fortuna.
Competindo ombro a ombro para sobreviver nas calçadas, debaixo dos toldos das velhas lojas, há muito desaparecidas.
Como o próprio Mappin, sobrevivendo apenas nas memórias dos amantes ali postados, esquecidos do implacável tempo, simbolizado pela engrenagem suspensa acima. Medindo secretamente os minutos contados de cada sonho, cada paixão, cada angústia.
Como o corvo de Poe, empoleirado no portal, e repetindo infinitamente:
– Nunca, nunca mais…
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