Nos tempos de criança…
Tínhamos na Rua Albino de Moraes (Vila Carioca – Ipiranga – SP) um terreno medindo 500 m², que aos poucos fomos construindo casas de alvenaria e casas de madeira. Com o passar dos anos, todas foram habitadas.
Boa parte dos moradores que nos pagavam aluguel era de origem mineira. Sendo criança, às vezes ficava escutando as conversas das mulheres, e recordo que elas muito falavam sobre doença de macaco. Achava meio esquisita essa conversa: criança com doença de macaco?
Dia 30 de outubro de 2009, resolvi pesquisar na web e entre outras tantas informações sobre o assunto digitei a palavra "simioto" e achei a informação a seguir.
Mal de simioto (de simio = macaco) é o nome popular, em algumas regiões do Brasil (MT, MS, GO), da desnutrição causada em crianças pequenas por alergia ao leite de vaca ou a incapacidade de digerir o mesmo. A doença aparece normalmente quando o aleitamento materno é substituído por leite de vaca em pó. Muitas vezes o intestino de um bebê não produz as enzimas necessárias a digerir a lactose de origem animal. Normalmente desaparece com a volta ao aleitamento materno ou por ama-de-leite ou substituição por outro tipo de alimento a critério médico.
A desnutrição é uma doença causada por dieta inapropriada, hipocalórica e hipoprotéica; também pode ser causada por má-absorção ou anorexia. Tem influência de fator social, psiquiátrico ou simplesmente patológico.
Quando meus pais vieram de Minas Gerais para São Paulo – mais precisamente para a Capital – não havia muitas ofertas de trabalho. O chefe da família tivera que interromper a Escola de Odontologia no terceiro ano, porque o curso se tornara impraticável: o estabelecimento onde estudava foi fechado pelo Governo de Getúlio Vargas e nosso pai, transferido para outra escola, distante de Pouso Alegre – cidade onde morávamos. Imagine: casado e com quatro filhos pequenos… – O remédio foi abandonar a Escola.
Em São Paulo, ele – ainda sem saber o que faria de definitivo – estava às voltas com o seu sobrenome: Ferreira ou da Fonseca.
Essa indecisão custou-lhe a perda de um excelente emprego como funcionário da Prefeitura, visto que a divergência de sobrenome o estava impedindo de receber os vencimentos.
Morávamos no Bairro das Perdizes. As nossas ruas foram a Turiassu, a Cotoxó e a Teixeira Mendes.
Eu, que sou o mais velho, teria naquela ocasião uns cinco anos de idade e, abaixo de mim, vinham mais três…
Lembro-me como se fosse hoje que, na Rua Turiassu, à tarde, depois do banho, ficávamos sentados ao portão vendo o movimento na rua. Ali mesmo, bem perto, tínhamos uma vez por semana uma feira, onde um alto-falante gritava alguns anúncios e tocava músicas (em minha mente está gravada a voz da Carmem Miranda cantando a "Boneca de Piche").
Viver em São Paulo com saúde é bom, mas quando vem alguma enfermidade – especialmente quando se ganha pouco – a coisa pode se complicar.
Um de meus irmãos – o quarto em idade decrescente, ainda um bebê – ficou mal. Foi emagrecendo e já não havia meios de que se alimentasse regularmente. Tinha febre e já nem se mexia mais. Meu pai, vendo o seu estado, chegou a tirar uma foto em que ele parecia ter somente pele e ossos.
O que seria? Permanecia no quarto, com a janela fechada para não apanhar golpe de ar… O que comia era expelido e tinha diarréia.
Imagine o desespero de uma mãe diante de um quadro como este: tudo o mais da casa era relegado a segundo plano, os outros filhos ficavam como semi-abandonados. E o pai, que tinha que sair para o trabalho? Como ficava ele à distância, sabendo do problema em casa? Meus pais saíram à busca de um médico pediatra que pudesse, com mãos salvadoras, livrar o nosso irmãozinho daquele mal.
Aí apareceu o anjo. Realmente era o anjo salvador – Dr. Margarido, um profissional que foi chamado pela família, talvez por recomendação de algum amigo. Chegou com algumas idéias que pareciam revolucionárias:
– Abram essa janela para entrar ar. Tragam um café bem forte – e foi dando às colheradas para meu irmão. – O filho de vocês está com simioto (doença de macaco) e, para vencer a fraqueza, já que a mãe não pode amamentar por não ter leite, o ideal será arranjar uma mulher que possa amamentá-lo.
Meus pais estranharam aquela idéia, mas o ouviam com atenção. E ele continuou:
– Muitas crianças têm alergia ao leite de vaca ou não o conseguem digerir. A doença aparece normalmente quando o aleitamento materno é substituído por leite de vaca em pó. Muitas vezes o intestino de um bebê não produz as enzimas necessárias para digerir a lactose de origem animal. Normalmente desaparece com a volta ao aleitamento materno ou por ama-de-leite ou substituição por outro tipo de alimento a critério médico.
A explicação era necessária para conscientizar meus pais, que logo foram atrás de uma mulher que o amamentasse. Assim, todos os dias, aquela mulher simpática vinha. Para simplificar o trabalho, compraram uma seringa – uma espécie de bomba – para retirar um pouco de leite, que era guardado para mais tarde. E imaginar que naquele tempo nem tínhamos geladeira…
Não deu outra: depois de alguns dias meu irmão começou a readquirir a cor e a cobrir seus ossos com uma camada mais espessa de músculos, carne e pele. E sarou.
E a foto? Bem, a foto, nunca mais a vi. Salve, Dr. Margarido – alguém que nunca mais pude esquecer.
E-mail: [email protected]