Lembro-me do jardim na casa pequenina e simples onde morava, com vasos brilhantes de plantas floridas, perfumadas… A velha vitrola tocando baixinho…
O Jardim era o local de reunião nos meses quentes de verão e nas noites de outono e primavera enquanto eu crescia… Um lugar de risos e boas conversas, de sabedoria e brandura.
Era à tardinha – quase ao anoitecer. Era aquela hora especialmente sossegada e suave que paira entre o dia que finda e a noite que cai, quando a terra fica parada e todas as coisas vivas parecem estar descansando temporariamente. Foi exatamente nesse dia que eu o conheci.
Ele parou na porta de casa, fez uma pergunta qualquer e eu me apaixonei por sua beleza infantil de um quase-homem, seu ar saudável e honesto, sua mente rápida e indagadora, sua inteligência e o potencial que ela indicava. Não lhe perguntei onde estudava, trabalhava, morava. Contudo, toda noite o esperava. O importante era vê-lo. Escutá-lo.
Passei a mentir às minhas amigas para justificar sua ausência aos sábados, domingos e feriados. Dizia-lhes que morava em outra cidade. Apesar de ficar no jardim e ele na calçada, na minha ingenuidade, julgava que éramos namorados, porém, nunca lhe perguntei por que não vinha nos dias que não tinha aula.
Que coisas abomináveis fazemos em nome do amor e da amizade quando somos adolescentes… Fazemos isso para nos protegermos, sem dúvida. Pois o amor, em especial, tem seus próprios terrores sem nome, bem como suas alegrias e êxtases.
Todo relacionamento tem suas pequenas traições e deslealdades. Principalmente quando se baseia em atitudes poerís, como nunca termos andado lado a lado, recostado a cabeça em seu ombro, sentido os seus braços me abraçarem e o calor das suas mãos nas minhas!
Um dia ele sumiu! Representou os argumentos que escreveu para si mesmo e, talvez, motivado pelo orgulho (ferido?) e, quem sabe, raiva.
É fácil ser sábia agora, depois de décadas. Atos passados sempre assumem um aspecto inteiramente novo. Novas proporções quando vistos de uma grande distância por olhos, hoje, maduros e experientes. As recordações também ficam distorcidas e modificadas.
Bem mais tarde daqueles tempos, ele me encontrou no SPMC. Falamos-nos virtualmente e deduzi que se afastou porque me viu na garupa de uma lambreta. E era verdade! Na época, tudo estava dentro do contexto de uma garota de 15 anos que se sentia rejeitada.
Hoje percebo mais que nunca, como é crucial a paz que a confiança me dá. É tão bom, às vezes, abdicar de responsabilidades e decisões, encostar a cabeça no ombro do meu companheiro de tantas jornadas e, segura, me deixar levar.
Afinal, pertencemos ao "tempo da delicadeza, onde não diremos nada, nada aconteceu, apenas seguirei como encantada, ao lado seu". (Chico Buarque).
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