Simbiose

Já fui do tipo que queria fugir da capital, pelos mesmos motivos de sempre. Já tive medo de ser engolida. E já consegui fugir. Fiquei dois meses no sul, morando com a minha madrinha. Eu tinha vinte anos e nenhuma experiência de vida. Lá, só fui acolhida por ela, a tia.

A cidade não tinha oferta de empregos. Fiquei dois meses e voltei. Quando voltei, minha mãe e meu pai foram me buscar na rodoviária. Abriram os braços, me abraçaram. Me disseram:
– "Seja bem vinda, minha filha!".

Até hoje não sei bem se o abraço foi deles ou se foi de São Paulo. Eu cheguei em uma sexta-feira. Na segunda saí cedo, com pasta debaixo do braço, para procurar emprego. Voltei empregada.

De lá pra cá, ás vezes recebo meus amigos gaúchos que gostam muito de São Paulo por sua programação cultural, tão intensa, tão diversificada. Fui pegando o jeito em montar roteiros para recebê-los. Um dia eu coloquei um deles na internet e fui elogiada. Disseram-me que eu conheço muito bem a minha cidade e que o roteiro é ótimo e diferenciado. Só que conhece um lugar sabe entendê-lo, sabe desbravá-lo.

Então fiquei pensando de onde surgiu tanta intimidade com São Paulo… Eu ando sozinha desde os nove anos de idade, quando precisava levar minha irmã à Casa de Cultura. Íamos da estação Santana até a Conceição, do metrô. Isso me fez perder o medo. Mais tarde, percorrendo as ruas do centro para procurar emprego, me familiarizei com as ruas, as pontes, as passagens, as facilidades.

Posso dizer que eu cresci junto com São Paulo. E me entendo bem com esta gigante, de coração infinito e alma cosmopolita. Não dá pra contar a minha história sem falar dela. Ela me queria aqui, eu fiquei. Aprendi a vê-la com os olhos certos. E sim, alguma coisa acontece no meu coração.

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