Vi, há muito tempo, um belo filme. O astro era Burt Lancaster, e o título, como quase sempre ruim com a tradução em português, era “Enigma de Uma Vida”. “The Swimmer”, no original. “O Nadador”.
Era a respeito de um homem que retornava à sua cidade e refazia seu caminho, físico e espiritualmente, até sua casa, nadando pelas piscinas de seu passado.
Tentarei algo muito diferente, -afinal, não sou bom nadador- mas, de certa forma, relacionado, mergulhando de cinema em cinema, de filme em filme, também talvez à procura de mim mesmo, de quem fui e do que sou agora.
Então, não esperem aquelas frases manjadas com relações de filmes -ah, que saudade da “Noviça Rebelde”, do “Doutor Jivago”… Não se fazem mais filmes como aqueles… Nada disso, mesmo porque não é verdade.
O cinema evoluiu e continua modificando-se, com ótimas produções. Mesmo porque não me congelei nos filmes desses tempos, e continuo um cinéfilo.
Mas se tenho de restringir-me a uma época do cinema, ela é a de ouro da Cinelândia e dos belos cinemas de bairro. Não dá para escapar. Então, o que estou fazendo é pensar num cinema e ver que filme me vem à mente. E um só, dos milhares que assisti.
Foi, com certeza, no Paissandu que vi o excelente “A Princesa e o Plebeu”, com Audrey Hepburn e Gregory Peck. Apaixonei-me por Roma, no ato.
A cena em que Greg mete a mão na “Boca da Verdade” despertou-me o fascínio pela arqueologia e mistérios da cidade.
Gesto que eu viria repetir, vários anos depois com meus sócios do Martinelli, adentro o Pedro II, em pleno Anhangabaú. Ali Christopher Lee barbariza, como “O Vampiro da Noite”.
Vejamos… O Marrocos, que me lembra? Na sua enorme fachada, um também gigantesco cartaz: “Giant, Assim Caminha a Humanidade”, último filme de James Dean. Fui ver, mas achei fraco. Continuo achando.
No Ipiranga, um grande choque: a linda Janet Leigh morre de forma brutal bem no início de “Psicose”. Tomei o ônibus para casa traumatizado. Arrrghhh!
Acho que não fui muito ao Marabá. Mas lembro-me de um bang-bang, com colegas do colegial. Desta vez, Peck fazia um vingativo e infalível pistoleiro, todo de negro. Ah, “The Bravados, O Estigma da Crueldade”.
O Metro… Lembro-me de estarmos, minha mãe, meu irmão e eu, cruzando uma noturna Praça Marechal Deodoro, bela e tranquila. Rumávamos para ver Miguel Strogoff, o “Correio do Czar”.
No Aurora, dos vários que assisti ali, fico com “O Trono Manchado de Sangue”, de Akira Kurosawa, com Toshiro Mifune, uma versão japonesa de Mac Beth.
No poderoso República… “O Poderoso Chefão, Primeira Parte”. É justo.
No Regina, ficarei com “Gunga Din”, com Cary Grant. Mais adiante, está o Cinerama. Então, o filme de apresentação do sistema – “Isto é Cinerama”! Os sustos começam num carrinho de montanha russa e outros efeitos assim se seguem no imenso telão.
Como “The Swimmer”, nadando das profundezas de um cinema a outro, aproximo-me da Santa Cecília de minha juventude. Já estamos quase lá.
No Itamarati, R. Barão de Tatuí, muita coisa boa. Ali vi “Meu Tio”, de Jacques Tati, num dos raros retornos de minha mãe aos cinemas, pois, num passado distante, havia feito uma promessa de nunca mais fazê-lo. Mas esta já é outra história.
O Miami, antes Plaza… Fico com “Trapézio”, com Tony Curtiss, Burt Lancaster e Gina Lollobrigida. No São Pedro, diante da casa de Tia Zilda? “Les Amants”, de Louis Malle. Chocante para a época.
Seguindo em frente, o fantástico Santa Cecília. Que as estátuas indonésias e cabeças de elefantes não nos desviam a atenção de “Matar ou Morrer”, com o heróico Gary Cooper em sérios apuros.
Depois, o Esmeralda, primeiro cinema a que fui, recém-chegado a São Paulo. Ali vejo, com bastante atraso, “Shane”, onde Jack Palance dispara um verdadeiro tiro de canhão contra um pobre camponês, que voa sobre a lama do vilarejo.
Finalmente o Haway, na R. Turiassu, já bem distante de casa. Ali Rock Hudson, o meloso galã da moda, tenta levar para a cama a eterna virgem Doris Day. “Pillow Talk”. Lembram da musiquinha?
Vou escapar do roteiro para, saltando para o futuro, ver no Cinesesc, na Augusta, o maravilhoso “Nós Que Nos Amávamos Tanto”.
Desculpem, mas o filme e o cinema merecem. O ano é 74, e estamos longe não só da Cinelândia, de Santa Cecília, mas de nossa tumultuada juventude…
E “Assim Caminha a Humanidade”, para voltar a Giant, no início do texto.
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