Triste Natal e Ano Novo foram aqueles dos anos 50, principalmente para mim e meu irmão. Não por falta de presentes, mas por ver a mesa abastada de frutas, carnes, bebidas, doces e, o mais interessante, ali jaz um porquinho inteiro, assado com um abacaxi na boca, como se vivo estivesse.
Toda a família comemorando, menos eu e meu irmão. Só minha mãe percebia a nossa tristeza e sabia o porquê dela. O importante é que esse porquinho era, para nós e os coleguinhas do bairro, durante todos os finais de ano e por vários dias que antecedia os Natal, a alegria e diversão da molecada.
Naqueles tempos, era comum as pessoas do interior mandarem por trem animais vivos para os parentes da capital em época de finais de ano, os quais eram entregues por caminhões ao destinatário, e isso o meu tio Jairo fazia todos os anos: nos mandava da cidade de Pongai o tão esperado porquinho.
Para as crianças da capital, a grande São Paulo, isso era novidade! Muitos nunca tinham visto um porquinho vivo e todos os dias nossos amiguinhos se reuniam no quintal do empório de meu pai, e ali passávamos o dia inteiro brincando com o animalzinho… O que muitos não sabiam é que em poucos dias ele já não estaria mais entre nós.
E o mais triste dessa história era o modo cruel como ele morreria.
Em São Paulo, naquela época, era difícil ter alguém que soubesse lidar com esse tipo de problema, mas como em todo lugar sempre tem um "faz de tudo", tinha o sapateiro do bairro, cujo apelido era 'Bugio’. Ele era o carrasco que se prontificava a sacrificar o porquinho, pois não havia outro e, perante mais de 30 pessoas, a maioria criança, formava-se uma roda em volta do porquinho e o Bugio, como que parecendo um herói e sem nenhuma piedade, usava seu método cruel: com várias marteladas na cabeça (nunca morria na primeira), sacrificava o indefeso porquinho e logo a seguir despejava água fervendo no porquinho ainda se mexendo. Muitas crianças não conseguiam ver e, chorando copiosamente, deixavam o local. O mesmo acontecia comigo e meu irmão. Esse acontecimento marcou muito a nossa infância.
Hoje, quando me recordo desses fatos, chego a acreditar que feliz é o morador de rua, que passa Natal e Ano Novo somente com "pão, água e banana".
Bugio, onde você estiver, que Deus o tenha; sei que não estás arrependido de seus atos, mas com certeza está com remorso, o que é muito diferente.
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