Dizem que a nossa querida cidade ganha quatro buracos por dia. Eu, particularmente, acredito que esse presente ruim ainda é maior. Porém, esse é o preço pago pelo intenso tráfego de veículos pelas ruas e vias principais da cidade, além é claro daqueles produzidos pelos canos estourados.
Mas quando se é criança, tudo é motivo para festa. Lembro-me que, aos 10 anos ganhei uma bicicleta nova, envolta a todos os tipos de precauções dadas pelo meu pai.
– "Menina? Olha lá hein! Nada de andar na rua quando tiver movimento, preste atenção nos pedestres, crianças…"
Você já viu criança sem os pais por perto obedecer a regras? Difícil não! E foi o que aconteceu. Um burburinho na rua fez com que saísse ao portão para observar o ocorrido. Ao olhar observei um imenso jato de água a jorrar do solo e subir como um foguete molhando os telhados das casas vizinhas.
Toda a criançada saiu na rua e alucinadas olhavam felizes para aquele imenso 'gêiser', oriundo de um grande cano estourado, a brotar do asfalto. Peguei então minha bicicleta e de longe vi meus coleguinhas tomando banho do chuveiro natural.
Feliz, acelerei como o Emerson Fittipaldi fazia e eu observava na TV preto e branca que tínhamos em casa. Ao me aproximar daquele majestoso jato de água, a emoção ficou mais forte bem como o ritmo dos meus pés no pedal. Resultado; cai numa imensa cratera, cheia d'água, frente ao olhar atônito dos vizinhos amigos.
Todos correram para me ajudar. O motorista do furgão verde dos Doces Confiança, os vizinhos e o pessoal da Companhia de Águas e Esgotos que acabara de chegar. Fiquei com pernas e braços esfolados, a bicicleta toda amassada e de castigo por algumas semanas.
Porém, mesmo chateada pelos doloridos ferimentos, pelo castigo imposto pelos meus pais e a gozação dos coleguinhas que me apelidaram de "a garota do buraco dos democráticos", tive a alegria de ganhar vários doces do motorista do furgão e também uma bicicleta nova da Cia. de Águas.
Quando hoje conto a incrível história para os meus filhos já adultos, eles olham com descrença ao me verem mencionar a palavra "saudades do buraco"; ai explico que aos olhos da criança a alegria ocorre por pequenas coisas e atitudes. É toda essa singela alegria infantil que não vejo e continuam me dando muitas saudades.