Saudades das Copas do Mundo II

Continuando e relembrando nossa redenção em 58: quanta alegria, quanta festa fizemos no nosso bairro, na nossa rua, na nossa cidade, no nosso Brasil!
 
 
Suécia 1958
 
Levamos oito anos para digerir aquela derrota de 1950.
 
E o melhor estava por acontecer. O primeiro passo foi organizar uma estupenda comissão técnica, com o Dr. Paulo Machado de Carvalho no comando e uma seleção de craques que encantou o mundo. Foi o debute do Rei Pelé, com o nosso fabuloso Garrincha e os inesquecíveis: Gilmar, Beline, Zito, Djalma Santos, Nilton Santos, De Sordi, Mauro. E ainda Oreco, Zozimo, Didi, Vava, Zagalo, Pepe, Mazzola entre outros e com o bonachão Vicente Feola no banco. Estávamos apenas começando humildemente nosso reinado de alegrias.
 
Eu sempre fui extremamente sensível emocionalmente, e para chegar às lagrimas não é preciso muito. Foram inúmeras vezes que chorei com resultados da seleção, e do meu clube do coração. Mas a que realmente mais doeu foi aquela de 1950. Pois era ainda um adolescente e aquela derrota tocou lá no fundo do meu coração. 
 
Mas entre as outras vezes que chorei, a mais deliciosa estava chegando para mim. E quando via os espanhóis, beijando a estrelinha que havia sido colocada na camisa deles no final da Copa na África do Sul. Veio-me na lembrança o choro de alegria naquele começo de tarde, daquele domingo de junho de 1958, quando começamos a colecionar estrelinhas em nossas camisas, coisa que nos cabe o privilegio de ter começado com esse costume, pois depois disso todas as outras seleções imitaram. Assim também como aquele gesto do Belini erguendo o troféu para o alto como que agradecendo a Deus por aquela vitória digna de muita humildade garra, e merecimento. E nossa vez tinha chegado naqueles 5 x 2!
 
Na final foi contra os donos da casa, a Suécia. E esse foi o começo de um reinado que poderia ter sido ampliado ainda mais. Mas não dá para ganhar todas. Mas que tínhamos potencial para isso tínhamos. Hoje tudo mudou e o mundo já está mais parelho futebolisticamente falando. Tanto que a maioria dos convocados da nossa seleção joga no exterior.
 
Dessa Copa de 58 lembro daquele domingo em que estávamos jogando contra a Rússia. Era hora de almoço e nossa família estava reunida como de costume de todos os domingos com meu pai na cabeceira da mesa. Eu era recém casado, pois casei no fim do mês de maio. A rádio vitrola estava ligada na Bandeirante. O Pedro Luiz e o Edson Leite dividiam irradiação do jogo com emoção meio tempo cada um. O meu pai, um espanhol meio do contra, brincava comigo, dizendo que os russos iam arrebentar com o time brasileiro (ele tinha a mania de achar que os russos eram a maior potência mundial , depois daquele domínio que tiveram contra os nazistas no fim da II Guerra Mundial) . O jogo estava 0 x 0 e até confesso que tinha um pouco de receio, pois eles tinham um time bem arrumado. 
 
Mas com todo o respeito que tinha pelo meu velho eu brincava e dizia: “pai não vai dar outra, é Brasil na cabeça!”. E o Garrincha fazendo das suas, fingia que ia para um lado, e ia mesmo enganando sempre o adversário. Em uma dessas, ele cruzou uma bola na área e o Vavá fez o primeiro gol, o que deixou meu velho meio contrariado, pois sua predição não estava se concretizando. E logo no começo do segundo tempo o Vavá enfiou o segundo e eu gritei “goool!”… E ali acabou a festa e nosso almoço também, pois como o velho tinha tomado um pouco a mais do vinho que tinha direito, não quis mais saber de conversa.
 
Mas voltando ao domingo da festa da final, nós todos juntos: Careca, Bolão, Aquilino, Rudes, Gibino, Rubico e o Robles, que era primo do famoso Pinga I da seleção e da Portuguesa e do Vasco, saímos para festejar o primeiro título mundial. Começamos pela nossa saudosa Rua Caetano Pinto e pelo Bairro do Brás, onde morávamos. Depois pela cidade, sem deixar de ir a um lugar tradicional, que nos velhos tempos era sempre o escolhido para comemorar por todos qualquer acontecimento esportivo seja qual fosse: A Avenida Cásper Libero, em frente à sede da Gazeta Esportiva, onde era sempre dada a saída e a chegada da corrida de São Silvestre no último dia do ano. Foram muito extasiantes aqueles momentos! Foi aí que chorei aquele choro bem gostoso. O choro da alegria que o momento da vitória nos proporcionava.
 
Lembro também do dia em que recebemos os campeões que voltavam da Suécia. Eu como era taxista, como não podia deixar de ser, estava trabalhando. E com o rádio ligado na Bandeirante escutando e acompanhando as homenagens que o povo lhes prestava. E eles em cima de um carro de bombeiros em passeata pela cidade. Isso ainda no Rio de Janeiro e depois parte do grupo viria para São Paulo.
 
Nisso, lá na Praça João Mendes, subiu um passageiro enquanto eu esperava o sinaleiro abrir, e aos berros como um louco varrido me ordenava que eu desliga-se o rádio imediatamente. Eu fiquei olhando espantado e surpreso com a maneira que aquele sujeito queria estragar meu dia. Dizendo-se coronel do exército (nem general ele era), dizendo que aquilo era uma palhaçada e que ele não podia fazer parte dela, inclusive dizendo que quando os soldados brasileiros voltaram da Itália não houve nenhuma manifestação popular como aquela para eles. Eu protestei com veemência, pois eu mesmo havia participado dessa homenagem em 1945 que começou no Anhangabaú e seguiu pela Avenida São João até a Praça Marechal Deodoro. Mas no fim achei melhor desligar o rádio, pois como ele pagava pelo serviço, ele tinha algum direito quanto a isso, pois o meu direito sempre termina onde começa o do meu próximo. Até porque como diz o velho ditado “a corda sempre arrebenta do lado mais fraco”, e ia acabar sobrando para mim… E aquele recalcado oficial (se é que ele era, pois nunca se identificou) desceu na Sete de Abril, no edifício dos Diários Associados, e aí pude de novo escutar a festa sem maiores problemas, pois todos os passageiros que servi no resto do dia, eram normais e festejaram comigo aquele momento feliz.
 
Até o próximo capítulo, no Chile de 1962.