São Paulo, três tempos de amor

Quando te conheci, invadindo tua intimidade sem ser convidado, tinha eu apenas cinco anos, uma criança, quando já tinhas 395, sempre jovem, bela e tranqüila.

Acolheste com carinho a criança, que passou a desfrutar uma de tuas regiões mais bucólicas, o Bixiga.

Que felicidade aqueles dias na modesta pensão da Rua Genebra, onde meu velho pai tentava sobreviver à tua sombra. Quanta saudade do "tobogã" natural, nos barrancos do final da rua (que então era elevada e não tinha saída), onde a meninada escorregava em caixas de papelão, até atingir a Rua Maria Paula.

Como era bom ouvir, todas as manhãs, o tilintar do rebanho conduzido pelo simpático velhote, de nacionalidade indefinida, que tangia seu rebanho de cabras pelas ruas e avenidas do Bixiga, sem qualquer problema de trânsito ou fiscalização, vendendo de porta em porta os copos de leite ordenhado na hora.

E achávamos divertido (na inocência da infância), em época de tempestade, correr até a Rua Japurá para ver o desespero dos moradores de porão, tentando salvar das enchentes (raras na época) seus parcos pertences.

Como a pensão não deu certo, meu pai resolveu aventurar-se na montagem de um cortiço, alugando um casarão na Rua Artur Prado, com lindo jardim e enorme quintal arborizado, a família sobrevivendo à custa de inquilinos amontoados em inúmeros cômodos adaptados por meu valente nordestino.

Era tão bom pular o muro divisório entre o cortiço e o Palácio Episcopal da Rua Pio XII, para colher inocente os coquinhos que se espalhavam nos extensos gramados…

E admirar embevecido, grudado às grades dos portões, a guarda de honra, toda paramentada em dias de festa, quando ali aportavam todas as autoridades religiosas imagináveis.

Mas o progresso novamente nos obrigou a mudanças, entregando-se o casarão ao proprietário para demolição, insistindo meu pai no meio de vida, alugando outra mansão arruinada na Rua Augusta (antigo laboratório Quimiatra).

Foi ali, na verdade, que fui mais feliz. Como eram boas as noites quentes, com a gurizada cruzando a rua deserta em uma perna só (que saudade da "mãe da rua"), enquanto os mais velhos conversavam nas cadeiras à calçada.

Eu delirava de prazer, descendo toda a Rua Augusta, até a Martins Fontes, em nossos carrinhos de rolimã, utilizando a faixa asfaltada dos trilhos de bonde, sem qualquer perigo ou preocupação com o trânsito.

E por falar em bonde, quão emocionante era a molecagem de fugir do cobrador, trocando constantemente de lugar nos estribos do carro aberto.

Ou passear no domingo à noite, com meus pais, nos novos "camarões" Três Avenidas, sentindo o cheiro gostoso da pintura verde e creme, e dos bancos de palhinha, percorrendo a Avenida Brigadeiro, a Avenida Paulista, a Rua Angélica.

Que emoção, por assistir à circulação do primeiro ônibus elétrico, linha Jardim Europa, em sua viagem inaugural à meia-noite, repleto de autoridades, sob os aplausos da população nas calçadas e nas janelas, ao longo da Rua Augusta.

Como era importante, na feira-livre da Rua Peixoto Gomide, carregar sacolas e ganhar algum trocado.

Um dos folguedos prediletos, nas tardes ensolaradas, era escorregar em tábuas betumadas de sabão, no extenso declive gramado da Igreja do Divino.

E as quermesses daquela igreja! Que alegria!

Os dias eram felizes, com a petizada galgando os morros da Avenida Nove de Julho, desde a entrada do túnel até o Pronto Socorro Santa Inês, cujo número telefônico (77-7777), pintado em enorme placa, dominava a colina. Ao depois, um rápido banho no chafariz, sempre de águas límpidas, à entrada do túnel, que também percorríamos correndo, fingindo-nos motoristas.

Veio depois o terror do primeiro dia de aula, no Grupo Escolar São Paulo (hoje Marina Cintra), única ocasião em que me senti desamparado por ti. Mas o trauma passou. Restou a melancolia de relembrar aquele tempo, quando não faltava um saquinho de balas quebradas, distribuído aos escolares pelo simpático porteiro das Balas Seleções, na fábrica próxima à escola (Avenida da Consolação).

Como era gratificante comprar, com os centavos destinados ao lanche, o duríssimo, gostoso, cheiroso e colorido doce machadinha, cuja receita parece haver-se perdido no tempo, pois nunca mais vi.

Mas o progresso, vez mais, obrigou minha família a te abandonar, mudando para cidade próxima, tirando-me dos teus braços, onde vivi os melhores três anos de minha infância.

Como te amei por tudo isso!

Visitei-te, sim, para comemorar teu aniversário mais importante – o quarto centenário – embasbacando-me com a beleza do Ibirapuera, e com a inesquecível chuva de triângulos prateados (Wollf/Pignatari) jogados por avião e alumiados por holofotes, nos teus 400 anos. Mário Zan e Hebe Camargo cantavam, nos roufenhos rádios da época, a inesquecível "São Paulo Quatrocentão".
Quando voltei novamente a teus braços, casado e já mais velho, indo morar na Martiniano de Carvalho (paralela à Brigadeiro) tu estavas mais velha na idade, porém mais nova e mais bonita na aparência, embora agitada e apreensiva nos famosos "anos de ferro".

Que delícia poder voltar para casa, com toda segurança, de madrugada, cantarolando com minha mulher as melodias há pouco ouvidas no Teatro Record ou em um dos inúmeros barzinhos com música ao vivo.

Quanta tristeza ao ver os teatros, baluartes da resistência de tua cultura, serem um a um incendiados por vândalos que, agora se sabe, estavam a mando da repressão, tentando calar teus artistas que insistiam em pugnar pela liberdade.

E mais uma vez o progresso, inexorável, me afastou de tua intimidade, levando-me agora para teu subúrbio, onde fui envelhecendo, admirando à distância tua pujança, tua juventude, tua beleza e modernidade. Cada vez mais radiante.

Como eu te amei, de novo!

Agora volto a ti, já me sentindo um velho aos 65 e você cada vez mais jovem e linda, aos 456. Com que carinho abrigas em teu seio todos que te procuram, venham de onde vierem.

Que felicidade, interromper meu corre-corre profissional para admirar tuas belas e modernas construções. Como é gratificante fazer ligeiras paradas para escutar os "leros" dos camelôs, ou admirar um músico ao violão ou saxofone, a vender seus CDs nas praças.

Impossível conter o riso, até mesmo a gargalhada, frente aos repentistas nordestinos que pululam em tuas esquinas.

E só me resta um consolo (eu cada vez mais velho, tu cada vez mais nova), a certeza de que, após tantos anos a te dedicar amor, acolhido em teus braços apenas por breves momentos, sentindo tuas mazelas, às vezes tua indiferença, poderei um dia, por fim, habitar nas tuas entranhas (Quarta Parada? Araçá? Consolação?) ou crepitar meu corpo na tua fogueira da Vila Alpina, no descanso final que se avizinha.

Não tenho, enfim, qualquer dúvida.

Como ainda te amo.

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