São Paulo, o mar de prédios

Comecemos pelo nosso Brasil, cujo extenso e belo litoral é beijado pelo Atlântico, mar azul que se derrama na areia, em brancas e espumantes ondas, em toda sua extensão. Um colírio para nossos olhos.

Colírio também é o nosso outro mar, nossas Minas Gerais, com suas altas e maravilhosas sucessões de montanhas, um espetáculo grandioso. E mais além, nos deparamos com o mar verde, da floresta, Amazônica, misteriosa, intransponível, recortada de rios caudalosos e de igarapés. Sem nos esquecer do magnífico "canyon" que separa Santa Catarina do Rio Grande do Sul.

Diante da grandiosidade deste nosso país continental temos que admitir a mão de um Deus, maravilhoso, criador de tais belezas, mas que mesmo diante de tanto poder, este ser nos deixou, para nós homens, feitos à sua imagem e semelhança, nos deixou, como afirmei, um planalto, uns campos, os campos de Piratininga.

Creio que Deus pretendia conhecer a habilidade e o poder destes seres, cujo livre arbítrio sempre respeitou e pedindo, tão somente, que nos amássemos uns aos outros, como nos ama, que crescêssemos e nos multiplicássemos. E, desse modo, no meu entender, começamos a erguer, do chão, um mar de cimento, areia, suor e pedras, uma metrópole, nossa São Paulo.

Isto posto, vamos ao que eu quero contar – minhas impressões como paulistana nata, oriunda e com várias décadas de vida sempre aqui nesta cidade, sempre entre o Cambuci e o Ipiranga e vez ou outra no Brás. Pois bem, convidada para dois eventos eu, literalmente, me assustei ao me encontrar e defrontar com o mar de prédios que nos tornamos.

O primeiro evento foi em Moema, um "flat" na cobertura de um prédio altíssimo. Dos terraços só se avistavam os tetos e as antenas. Era uma visão tão assustadora que minha velha e conhecida síndrome de pânico ficou me rondando, fazendo com que eu tentasse sublimar a emoção, olhando apenas o céu e tentando ficar o mais longe possível dos terraços. É uma visão que todo paulistano ou visitante deveria, pelo menos uma vez na vida, ter a oportunidade de presenciar.

O segundo evento, este foi em Higienópolis, bairro em que nestas décadas de vida, muitas, eu jamais tinha estado. Para ser franca nem sei se é desse jeito que se escreve mais sei que foi fundado em uma época de grandes epidemias e por esse o motivo do nome e as famílias mais abastadas o edificaram.

Ao contrário do outro evento, era uma festa infantil, no salão térreo de um prédio, enorme, e as mesinhas se espalhavam também pelo quintal que era também imenso. Sentada em uma das mesinhas, uma senhora contava que nascera e vivia neste bairro e que nele tinha de tudo. Vivia ao redor do shopping Higienópolis que não conheço, mas que, segundo esta, bastava. Tinha academia, almoçava na praça de alimentação, encontrava amigos, ia ao cinema, enfim, era lá sua praia.

Mar de prédios, praia, shoppings, foi o que conclui. Nesse momento me dei conta de que estava rodeada de altíssimos prédios, um ao lado do outro e, outra vez, a síndrome me rondou, o coração disparou, senti falta de ar, pedi licença e fui para o jardim e deste para a calçada. Dei-me conta de que ali não havia mais o horizonte, era decididamente um mar de prédios, nenhuma nesga sequer de horizonte, nada mesmo. Prédios lindíssimos, imensos, vale a pena uma visita ao bairro.

De baixo o espetáculo é devastador e ao mesmo tempo de uma beleza ímpar, como claustrofóbica, este imenso mar de cimento me deixou sem ar, eu que sempre estou no meio de multidão, dentro de metrô, ônibus e andando muito a pé confesso que senti também falta de nossos tipos, nossas tribos, que no meio de nós se diversificam em japoneses, íncas, nordestinos, europeus e tantos outros que por aqui transitam, lotam calçadas, sentam-se nas guias e nas escadarias, montam barraquinhas de bugigangas e de comes e bebes.

Tenho uma prima que afirma, com todas as letras, que em certos dias a cidade fica tão cheia de gente, tão sufocante, mas é porque todos estão por aqui, estão também "os encarnados, os desencarnados, os da turma do limbo", mas em outros dias, estes se recolhem e só ficamos nós, " os encarnados" com todas as nossas tribos e a cidade fica mais "soft", mais leve. Colorida.

Convido todos, autores, leitores, comentaristas para que tirem um dia e visitem nosso mar, ali, onde ele se torna mais assustador, bem no alto ou então bem lá embaixo, na calçada, em bairros onde só ficou o céu e o horizonte desapareceu. Vale como prova do que o homem pode construir.

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