Londres, Paris, Nova York, Buenos Aires, Barcelona… São Paulo… Todas as grandes cidades do mundo começaram pequenas.<br><br>Uma casa, duas, três… uma aldeia… porém a aldeia, para tornar-se cidade, passa por uma transição. Um período nebuloso, de histórias, época da formação do mito urbano. Porém, o que é o mito? <br><br>O mito contrapõe-se à razão e é o princípio irracional e onírico da mente humana. "É uma segunda linguagem na qual se fala a primeira, é um código, uma metalinguagem”. Com esta frase Marlene Soares Pinheiro abre o capítulo II da sua obra "Sob o Signo do Carnaval", no título: "Ler o mito é pensar metáforas".<br><br>Sobreli nos recorda: "Existe o mito de Paris, que se pode rastrear na vasta literatura que vai desde "Os Miseráveis”, de Vitor Hugo e "Os Mistérios de Paris", de Sué, passando pelos folhetins de Alexandre Dumas, de Xavier de Montepin, de Ponson du Terrail, de Allain, até "Os homens de boa vontade”, de Romains. Há o mito de Londres, nas novelas de Dickens, da velha São Petersburgo, em Dostoievski, da velha Madri, em Pio Baroja (…)".<br><br>E o mito de São Paulo que se desvenda através do depoimento de centenas de paulistanos, iluminando o invisível. Aquela parte material e imaterial da cidade que só existe agora nas memórias…<br><br>Além do mito urbano, há o mistério das culturas exóticas. Como transparece na descrição européia da cidade do Cairo, no "O Egito", do Eça de Queiroz. É como uma cultura vê a outra. <br><br>O romancista português caminha pelas ruas estreitas e tortuosas da cidade velha, encantado com os muxarabiê, balcões mouriscos enfeitados por treliças de madeira, de onde se pode ver sem ser visto. É esmagado pelas tropas de camelos carregados com grandes cestas, imprensado na multidão de etnias que convergem todos os dias, provindas de todos os lados do mundo, para aquelas estreitas passagens do Cairo. Há exemplo de câmara moderna de televisão, a pena de Eça percorre toda a singularidade da paisagem humana. E deixa mais mistérios do que explicações. Não é capaz de perceber o que está em mudança, por desconhecer como é antes. <br><br>Em São Paulo, presentes os cinco continentes, esparramam-se também as suaves culturas dos pampas, dos cerrados, da floresta e das<br>Caatingas… E tudo vai mudando… lentamente…<br><br>A mudança chega a configurar até mesmo épocas sombrias, como assistimos no filme "Gangs de Nova York".<br><br>São períodos de transformações, do surgimento do capitalismo regional, da transfiguração da aldeia em grande cidade.<br><br>O cidadão antes conhecido por todos transforma-se em anônimo e a vida diária, comentada e escarafunchada pelos vizinhos, transmuda-se em algo secreto.<br><br>Os muros limitam as dimensões das propriedades e ocultam os fatos internos, os pudores familiares. A vida pessoal passa a ter diferentes vertentes, em diversos períodos e locais: na família – no emprego – com os amigos – nas farras – e daí para o secreto, o íntimo basta um pequeno salto.<br><br>E os muros, levam aos arquitetos geniais. Dois exemplos: Gaudi, em Barcelona; e Álvares de Azevedo, em São Paulo.<br><br>Seus traços transformam as aldeias e dão-lhes foros de cidade,<br>e acirram ódios inexplicáveis! Pois muros são sempre… muros! E o secreto, o íntimo, sempre ofendem.<br><br>Em São Paulo, pichações medonhas. Em Barcelona, no Parque Guel. Criação soberba de Gaudi, ali abundam os exemplos do tricandês, aquelas esculturas cobertas com cacos multicoloridos das sobras dos azulejos. Onde, em 2007, um grupo de marginais e desordeiros, armados com barras de ferro, atacou e destruiu a estátua do dragão que ficava na entrada do parque.<br><br>E o dragão de Gaudi, assim como a escultura do Flavio de Carvalho, feita em homenagem ao Garcia Lorca, ingressam, "fora-do-combinado", na lembrança da cidade invisível…<br><br>E assim como Saidenberg, penso em São Paulo, em sua dimensão mítica, exótica e moldada pela mudança, onde Gaudi e Álvares de Azevedo se encontram, apesar das diferenças… e que dobrem os sinos!<br> <br>E-mail do autor: [email protected]