Igreja Sagrado Coração de Jesus

Foi nessa igreja, a quarenta e cinco anos passados que me casei. Eu morava no Alto da Mooca e, por que razão fui parar tão longe, nos Campos Elíseos, para me casar? E ainda por cima, em plena terça-feira, com um trânsito pesado para atrapalhar.

Acontece que minha mãe assistira a algumas missas lá e achava a igreja muito bonita, muito especial. Na verdade, atualmente, por fora, ela tem uma aparência até bastante comum, integrada ao corpo do Colégio da qual faz parte e totalmente integrada à paisagem urbana carregada que a cerca. Por dentro ela é portentosa, mas é também um pouco escura devido aos seus revestimentos de madeira. Foi a primeira igreja construída em São Paulo em formato de Basílica. Sua torre já foi uma das mais altas edificações da cidade e podia ser vista de longe.

Portas de madeira maciças, coro, bancos, confessionários e sacristia tudo em madeira escura pesada e entalhada, bem como seus grandes armários e poltronas. A sacristia era repleta de forrações, tapetes e cortinados tradicionais em veludos e adamascados austeros. Lá também podiam ser vistos altos e belos candelabros de prata.

A nave principal, longa e suntuosa, possuía muitos lustres pendentes do teto. No altar também havia belos lustres, iluminação indireta e castiçais de prata.

Em suma, era uma igreja bastante austera, portentosa, mas que, ainda assim, emanava uma aura de sobriedade, de paz e de fortaleza. É um lugar com o qual se pode contar; onde uma pessoa se sente amparada.
Naquele tempo somente as famílias ricas decoravam a igreja para casamentos e bodas. Tudo era muito caro e difícil para bolsos como o meu, de família que hoje seria classificada na classe C. Dessa forma, nem me passou pela cabeça imaginar em me casar em uma igreja decorada. Também não atinei para o fato que a igreja era pesada, grande e portentosa e precisaria de uma decoração, por menor que fosse.

Minhas cunhadas, pessoas do interior e acostumadas a enfeitar igrejas simples, com flores que retiravam do jardim, não concebiam que nos casássemos sem nenhuma flor, especialmente colocada no altar para um ato tão importante. Resolveram ir para a igreja e ver o que poderiam fazer. Lá chegando, constataram que no domingo teria havido um casamento de famílias ricas do bairro e a igreja ainda estava toda enfeitada. Por ser o mês de maio, as flores estavam conservadas e uma gorjeta ao sacristão fez desaparecer as folhas e flores amareladas.
Com esta informação, lá se foi a noiva encontrar o noivo para se casarem. Mas a noiva não podia imaginar o que encontraria.

Ao se abrirem as grandes portas de madeira da Igreja, tive uma visão até hoje inesquecível. A decoração era toda em camélias brancas! O altar estava forrado delas e grandes candelabros de prata luziam suas velas. Todos os lustres acesos davam ainda maior beleza àquela igreja! O corredor, desde a entrada, ostentava em seus bancos lindos arranjos de fitas brancas.

A camélia é uma flor muito difícil para se conservar e manusear. Ela escurece ao ser tocada pelo suor das mãos. Eu nunca soube qual o artista e qual a floricultura que realizou aquela verdadeira obra de arte. Nunca mais vi nenhuma igreja decorada com camélias.

Em meu jardim tenho quatro pés de camélia, dois arbustos de camélia branca e dois de camélia rosa. Todo mês de maio, ao vê-las se abrirem, relembro o deslumbramento daquele dia, naquele magnífico Santuário.

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