Flashes porque tudo passa tão rápido, mas ao mesmo tempo é tão presente. Um presente feito de gente muitas vezes invisível.
Há um pedaço da Av. Heitor Penteado que ainda não virou cidade grande: a farmácia com os farmacêuticos dos velhos tempos que ainda orientam curativos e aplicam injeção em casa, havia também um pequeno supermercado, com o dono operando o caixa, que conhecia o pessoal da vizinhança e vendia fiado se necessário e agora há outro proprietário, a papelaria do dono, onde ainda se abre conta para pagar por mês, as casas de moda feminina, com suas simpáticas proprietárias, que realmente conhecem as freguesas, vendem à prestação e até mesmo orientam os maridos que vão lá comprar presentes para suas esposas, a dona da sapataria que, além de fazer um conserto perfeito, ainda rende um bom papo.
Nesse universo circulam ou circulavam alguns tipos característicos: a Zefa, eternamente bêbada, circulando pela Heitor com roupas superpostas coloridas, sempre de batom vermelho borrado, parecendo uma caricatura dos hippies dos anos 60. De um jeito ou de outro é cuidada pelos moradores; a Cristina dona da papelaria lhe dá batom desde que ela venha de banho tomado (e não é que ela toma), o segurança de um instituto de beleza, ficou velando por ela com um copo d'água na mão a mando da patroa, quando ela caiu na calçada e não queria se levantar. Mora no pedaço, quase Alto de Pinheiros (Vila Beatriz) numa casa própria simples, tem filhos, dá para bater um papo com ela nas vezes em que a bebedeira está no começo. Atualmente seu sonho de consumo é um batom “Boca Loca”.
Havia um moço que ia se aposentar quando fizesse 65 anos, segundo ele, trabalhou a vida inteira com os pais que eram feirantes e quando estes morreram deixou de trabalhar. Razoavelmente vestido, circulava pelo pedaço em geral querendo ganhar um cigarro. Morava na mesma rua que a Zefa, numa casa grande, que deve ter sido boa e hoje esta precisando de uma bela reforma. Jurava e me apresentava como a pessoa que iria arrumar-lhe uma aposentadoria do INSS, isso porque num papo que tivemos quando ele me pediu cigarro, conversamos e disse-lhe que poderia se aposentar por idade o que o deixou muito esperançoso. Não deu tempo, pois morreu repentinamente pouco antes dos 60. Sua casa parece ter sido invadida. Sobreviveu bem sem trabalhar. Todo dia vinha passear no “pedaço”, ganhava, até mesmo sem pedir, cigarro e era freguês de uma senhora que duas vezes por semana ainda dava-lhe comida colocada em vasilhas diferenciadas de plástico para a semana toda.
Um homem de recados do pedaço com iniciativa, prestativo e de toda confiança que, em troca de alguns trocados, faz serviços de banco, busca pequenas encomendas, enfim… Um quebra galho para o que der e vier. Tem um “senão”: só trabalha no período da manhã, porque na hora do almoço toma todas as “biritas” possíveis e não se aguenta de pé e acaba dormindo.
Havia o homem do queijo que por muitos anos encostava seu carro numa esquina e vendia queijo diretamente de Minas, uma delícia o queijo fresco e o “meia cura”. Sumiu e a dona da relojoaria informou que ficou muito doente e deixou de trabalhar.
O velhinho, que quase todo dia ficava no ponto do ônibus com uma receita encardida, quase rasgando, jurando que precisa de dinheiro para comprar remédio.
Enfim, um pedaço de São Paulo diferente que começa a sumir e deixa saudades.
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