Dia desses, um dos apresentadores de certo canal de TV paga, quando solicitado a mencionar qual achava ser o símbolo de nossa cidade, saiu-se com esta resposta:<br>- “Não vejo nada, para mim São Paulo é uma cidade "amorfa"”.<br><br>"De acordo com os meus conhecimentos", como diz aquela personagem da escolinha do Gugu, amorfa significa sem forma. Já o Aurélio afirma, entre outras coisas "que um organismo unicelular amebóide, quando em busca de comida, ele se espalha como massa amorfa e constrói conexões tubulares entre as fontes de alimentos". Os alternativos classificam sonhos de “amorfos" e afirmam que "esta substância amorfa se encontra no vácuo de nossa mente e que tudo se torna real pela meditação".<br><br>Indo no contra fluxo desta última definição, decidi tornar tudo real pela ação e não pela meditação, ou seja, verificar usando como ferramenta este camaleão, o metrô, que corta nossa cidade em suas entranhas e estabelece as devidas conexões entre as fontes de alimentos. Depois deste aqui, longe passou a ser um lugar que não existe para nós, paulistanos, nascidos ou adotados como tais.<br><br>Comecei embarcando nas periferias, ainda escuras, mulatas, cinzentas, na São Paulo que amanhece trabalhando, cujos sonhos pequeninhos, desbotados tão próximos estão do real, ou seja, da busca pelo pão nosso de cada dia, que se mesclam ao pó das construções, à fuligem, ao aço e ao concreto e se esfumaçam, como disse Caetano: "apagando as estrelas".<br><br>Depois segui em busca da Liberdade, vermelha feito o sol nascente, carregada de mistérios, olhos rasgados, onde já nos deparamos com incas, bolivianos, paraguaios, com seus cantos suaves e saudosos, melancólicos, em meio aos dragões, lanternas e sonhos vermelhos.<br><br>Na estação Sé, o camaleão emerge amarelo, sinal de advertência, de atenção que começa pelos avisos para segurarem seus pertences junto ao corpo, levarem crianças pelas mãos e mesmo que lá em cima, na boca escancarada do metrô, outras e perdidas crianças se banhem e girem em torno de chafarizes, usando entorpecentes e mendigando sonhos que presumo terem a cor amarela, do perigo, da fome embutida, do abandono. Imponentes, o Palácio da Justiça e a catedral da Sé, apenas observam tudo, majestosos, grandiosos.<br><br>Seguindo as entranhas, o metrô me despejou nas Clínicas, onde os sonhos estão em compasso de espera. Verdes: espera, esperando, esperança. De todas as partes chegam pessoas em busca de uma última palavra, a cura, o alívio, a medicina de ponta, a última e derradeira porta. Na parada seguinte, Sumaré, está o Santuário, a virgem violeta, a espiritualidade, o auxílio divino com o qual todos sonham e sem o qual nada faz sentido.<br><br>No final aponta a Vila Madalena, intelectual, sofisticada porque de lá poderemos vislumbrar parte do mundo cor-de-rosa dos bem nascidos, dos que tiveram a oportunidade de ter todos os sonhos realizados, os que detêm o dinheiro, o poder, os que puderam estudar e os que se agarraram às oportunidades e possibilidades. Guerreiros. Estes podem curtir e aproveitar tudo de bom que esta cidade oferece, em todos os sentidos, em todas as áreas, como só uma grande metrópole consegue proporcionar.<br><br>Os que conhecem a linha que percorri perceberam que passei direto pela região da Paulista, foi proposital. A Paulista é um mundo à parte. É aqui que está contida toda a nossa essência, é aqui onde brilha o imenso arco íris de sonhos das maiorias e minorias, dos incluídos e dos excluídos, por onde pedem passagem trios elétricos com anjos de asas brancas, corpos atléticos, “darks” enegrecidos, anjos e demônios de todas as mesclas e de todas as tribos, cujos sonhos são reunidos no imenso arco íris que chega até o nosso Criador, que nos fez iguais e diferentes, únicos e irmanados no destino comum de companheiros desta jornada. Somos "amorfos" porque não temos uma única e definida forma, somos feito esta nossa querida cidade. Cidade de todos os sonhos, de todas as cores, de todas as formas, de todos nós.<br><br>Amorfa? Amorfos de uma cidade amorfa? Ah! Cara pálida, você não entendeu nada, você não compreendeu nada. Que pena!<br><br><br>E-mail: [email protected]