Memórias de um taxista – Parte II

Gostaria de ter iniciado minhas memórias de uma maneira cronológica. Desde o primeiro dia em marco de 1953 e continuar com elas ate o ano de 1965 que foi quando deixei a profissão. A primeira foi a homenagem a São Paulo no IV centenário, em janeiro. Mas esta que vou contar hoje aconteceu mais ou menos pelo ano de 1957.

Trata-se de um caso de saúde publica e para contar isso vou sair mais uma vez da ordem cronológica. E gostaria de fazer um apelo aos possíveis leitores de lê-lo ate o fim por se tratar de interesse de todos. O assunto que vou abordar hoje trata dos fumantes. Com essa Lei Federal Anti Fumo que entrou em vigor no ano passado, fica proibido fumar em estabelecimentos comerciais, condomínios, escolas, repartições publicas, e com isso se acabam os fumódromos, aqueles pequenos ambientes nas empresas usados pelos fumantes para saciar a sua dependência com a nicotina.

Assim com essa nova lei passaram a descriminar uma população (pelas recentes estatísticas) de 25 milhões de fumantes e com isso violam os direitos das pessoas que não conseguem se livrarem desse vicio tão angustiante. Não e fácil encontrar um lugar em que os fumantes consigam exercer os seus direitos livremente. Pois e inegável que o direito de uma pessoa sempre termina donde começa o do próximo e vice versa. Os fumantes antigamente não encontravam essas restrições. A não ser dentro de cinemas e alguns lugares públicos como hospitais e também em transportes coletivos.

Mas mesmo assim em alguns deles, como nos cinemas havia sempre o saguão, em que podia se fumar durante os intervalos. E não e que eu esteja defendendo os fumantes, só defendo os seus direitos. Pois deixei de fumar a quase 50 anos, graças a Deus. Mas respeito os direitos do cidadão desde que eles não violem os meus que também são sagrados, pois não quero fazer parte dos fumantes passivos se eles fumarem ao meu redor.

Acontece que o comercio dos cigarros continua livre e sem restrições, pois o que se arrecada em impostos e muito mais importante que a saúde publica. Realmente esse parece um problema quase sem solução, a não ser que o bom senso das pessoas lhes permita entender o mal que a nicotina lhes faz e abandonem o vicio por vontade própria. Eu consegui, e acredito que todos podem também com alguma força de vontade encontrar esse mesmo caminho.

Nesta minha crônica vou contar como é possível largar o vício, e com isso tentar encorajar as pessoas que queiram encontrar essa força de vontade. Não e fácil, mas também não e impossível. Na minha família consegui fazer com que meu filho e minha nora, assim também como um amigo e sua esposa que me visitavam nas festas de fim de ano de 2011 procurassem ajuda para se livrar desse vicio. Hoje realmente e muito mais fácil do que quando eu consegui, pois existem meios medicinais que ajudam a amenizar essa dependência, entre outros estão os adesivos que se colocam na pele e com isso a pessoa passa a diminuir o numero de cigarros consumidos.

E a mais recente invenção lançada há não muito tempo é o cigarro eletrônico. É um cigarro que funciona como o real e que trabalha com pilhas dando algum prazer e ao mesmo tempo, dependendo do sabor que você escolhe, satisfazendo aquela dependência que o cérebro do fumante adquiriu e que não o deixa se livrar do vicio. Ele tem cinco sabores e nicotina em três graus, o forte o médio e o sem nicotina. Portanto nunca foi tão fácil tentar se livrar dessa horrível dependência. O meu filho e esse amigo que citei já estão tentando usando esse falso cigarro.

Lembro-me de que quando era adolescente comecei a fumar, tinha uns 17 anos e usava o cigarro para aparentar ter mais idade do que realmente tinha. Comecei a fumar o cigarro da marca Negritos, depois Yolanda, Continental, Astoria, cigarrilhas Talvis, Hollywood e os mentolados entre outros. Nessas alturas o vicio já tomava conta de meu cérebro e me tornei um dependente, e com isso infectava meus pulmões terrivelmente.

A minha historia começa em algum dia do ano de 1957. Naquela época 99% da população era de fumantes e ninguém reclamava. Eu como taxista nunca fui interpelado, que eu me lembre de apagar meu cigarro enquanto servia algum passageiro. Pelo contrario, me lembro de passageiros sempre oferecendo cigarros gentilmente.

Eu fazia o táxi lotação para a Vila Clementino que saia do Largo do Ouvidor e o ponto final ficava no Hospital São Paulo que também era a Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. Os usuários eram de todas as classes sociais, mas me lembro que levávamos muitos estudantes e professores da faculdade. Os mais frequentes já me conheciam ate pelo nome de Vilinha, o diminutivo do nome do meu pai que era Vilanova.

Mas lembro-me de um doutor e professor da faculdade, o Aníbal, mas como não posso jurar que esse era seu nome realmente, já que o fato ocorreu há muitos anos vou chamá-lo de Salvador, já que ele realmente foi meu salvador. Do contrario não acredito que estaria aqui contando a vocês essa história, pois eu fumava muito (dois maços por dia), e meus dedos ficavam amarelados pela nicotina, imaginem meus pulmões.

O doutor era um mulato enorme e muito simpático, e que tinha ate certa dificuldade para se ajeitar no meu carro, sempre no banco da frente. Eu dirigia um Chevrolet 51 bem confortável para pessoas de porte médio, mas ele era um pouco avantajado fisicamente, e seus joelhos iam sempre espremidos contra o painel.

Mas do que mais lembro era como ele me azucrinava com respeito ao cigarro, mas nunca tentando me proibir de fumar, enquanto eu o conduzia ate o hospital. Ele só insistia e afirmava que no dia em que eu lhe fizesse uma visita no hospital que com certeza eu iria largar aquele vicio. E isso era sempre que ele pegava meu carro, pois nem sempre isso coincidia.

Um dia, depois de tantos convites, resolvi aceitar para ver o que ele insistia em me mostrar. E então descobri que ele era professor e medico legista do necrotério do Hospital São Paulo que ficava na esquina das ruas Borges Lagoa e Botucatu, e lecionava na faculdade, fazendo necropsias com os estudantes ao seu redor. Quando lhe disse que iria fazer a visita naquele momento ele me instruiu para que lhe desse algum tempo para chegar a sua sala, pois ele entrava na faculdade pela porta principal que era na Rua Napoleão de Barros, e que eu fosse pela porta de entrada do necrotério que ficava na Rua Borges Lagoa. E que tivesse um lenço ao meu alcance no momento. Não entendi muito bem essa exigência, mas naquela época era comum sempre levar um lenço no bolso de trás da calça.

Dei o tempo necessário como ele me havia instruído. O necrotério estava aberto, mas à porta interna estava fechada. Bati e ele logo abriu, me convidando a entrar. Ai começou a me explicar o que ele queria me mostrar dizendo que ele tinha separado um pulmão humano de uma pessoa que tinha morrido de tanto fumar, e que eu não deveria me abalar com a cena que iria presenciar, mas que iria depender de mim, porque se eu continua-se fumando era assim que meu pulmão iria ficar, mas ao mesmo tempo ele tinha outro pulmão de outra pessoa que nunca tinha fumado, e que aquilo era para eu poder tirar minhas próprias conclusões e escolher o caminho que eu achasse melhor para cuidar de minha saúde no futuro. A decisão seria minha. Eu fiquei estático sem saber o que fazer ou dizer. Nunca esqueci o Salvador (ou Aníbal) e do gesto de grande influência na minha vida.

Ai ele me perguntou pelo lenço e eu já o tinha em mãos, e levando-me por um corredor paramos na porta de uma geladeira enorme, ao abri-la senti um cheiro horrível (cheiro da morte), e ai entendi a exigência do lenço e imediatamente cobri minhas narinas sem que ele mandasse, pois era obvia a necessidade. Nisso entramos e ele me mostrou primeiro o pulmão do homem que nunca tinha fumado, sem marcas e de cor rosada avermelhada, como carne de frango sem pele. Em seguida pegou outra bandeja com o outro pulmão afetado pela nicotina, e me deparei com uma coisa tão horrível que já são passados 50 anos e isso nunca mais saiu da minha mente. Era como se fosse um pedaço de carne da cor do carvão cheio de bolhas. Mesmo com aquela advertência para que eu não me abalasse ao entrar, não houve meio e alem do abalo, aquele mau cheiro chegou a me causar náuseas.

E praticamente sem poder falar só lhe dei um aperto em ambas as mãos agradecendo o que ele tinha feito por mim e sai correndo daquele lugar e pela Rua Borges Lagoa e não conseguia me refazer daquela estranha sensação e com lagrimas nos olhos ainda reservei alguns momentos para fazer uma oração pelas almas daquelas duas pessoas. E por mais que tentasse, não conseguia voltar ao normal, pois aquele cheiro estava impregnado em minhas narinas, minhas mãos, minhas roupas, meu lenço. Aquela sensação durou muito tempo. E que lição da vida aquele homem me deu.

Mas meu cérebro já era dependente dessa substancia, e por mais que eu fizesse aquela vontade de fumar não me abandonava. A primeira coisa que procurei fazer foi parar com o cafezinho e doces em geral. Consegui com muito esforço diminuir o consumo pela metade e comecei a usar cigarros com filtros, ate uma piteira, comum naqueles tempos eu comprei. E aquela imagem ficou gravada em minha mente, não pensava noutra coisa, me livrar dessa dependência completamente.

Também não faltavam os invejosos, os maus amigos e aqueles que sentiam que eu estava vencendo o vicio e me provocavam oferecendo e dando baforadas na minha face. Mas lembro-me de que em uma passagem de ano fazendo uma promessa para mim mesmo disse que iria começar o ano novo parando de fumar (como uma resolução), com muito sofrimento consegui e nunca mais fumei um cigarro. Só muitos anos depois no dia que nasceu meu primeiro neto, isso já longe de São Paulo comprei charutos para distribuir aos amigos e acendi um deles em companhia deles para comemorar o seu nascimento, mas isso me causou ate náuseas mesmo não inalando a fumaça, só dando baforadas.

Essa historia não termina aqui, pois depois de tantos anos de ter passado por essa experiência, no ano passado (se não me engano em julho ou agosto) vendo o programa do Fantástico pela Globo Internacional pude assistir tudo outra vez, mas sem tanto trauma, pois já conhecia aquela "cena" e vendo pela televisão não senti aquele odor tão horrível, mesmo lembrando-se dele e tudo foi mais fácil. E o doutor Dráuzio Varella introduzindo mais uma vez outra campanha de saúde publica desta vez tentando ajudar os fumantes a abandonarem a dependência a nicotina.

Acredito que muitos dos leitores do São Paulo minha cidade tenham visto esse programa, que depois também foi repetido por ele em outro programa da tarde o Bem Estar também aqui veiculado pela Globo Internacional. Só que desta vez pude gravar-los e tentar ajudar meu filho Gilberto e sua esposa Andréa, assim como amigos que me visitavam do Brasil. E ele mesmo tendo escutado essa minha historia acontecida na minha juventude tantas vezes, eles nunca deram muito credito ao que eu tentava descrever. Mas agora com aquelas imagens pude mostrar a eles o que o doutor Dráuzio apresentou pela TV a todo o Brasil.

E graças a Deus parece que ele sentiu, como eu senti há tanto tempo atrás a realidade do que acontece com um fumante .Porque não e necessário ser fumante para sentir os efeitos da nicotina basta ser um fumante passivo. E as crianças são as maiores vitimas em tantos lares pelo mundo.

Se alguém que esta lendo este texto que e fumante e que não tenham visto essas cenas do programa, procurem imaginar o que lhes estou contando, o pulmão do fumante que eu vi no Hospital São Paulo era preto como carvão e cheio de bolhas como descrito pelo doutor Dráuzio . Um pulmão pior do que ele estava mostrando que seria um fumante com mais de 30 ou 40 anos de dependência.

Sei que não será fácil para ninguém deixar de fumar de uma hora para outra, mas a decisão é de quem fuma. E se por todos os meios não conseguirem espero que consigam o respeito aos seus direitos de fumante que aos poucos vão diminuindo, para que assim meu direito seja respeitado, pois volto a repetir:
– "Os direitos de uma pessoa sempre terminam onde começam os direitos do seu próximo".

Boa Sorte!

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