"São Paulo, cidade da garoa". Na minha infância adorava sentir no rosto a garoa fina e continua. E é dessa infância que tenho muitas recordações alegres e tristes. A mais triste foi a perda de minha mãe, aos 14 anos de idade. Lembro com emoção o carinho daquela morena alegre, que adorava Angela Maria cantando "Babalu".
Entre as muitas alegres, as peladas no campinho da Rua Miranda de Azevedo, na Pompéia, o Grande Circo Norte-Americano, as brincadeiras na várzea, atrás do campo do Nacional A.C., dos parquinhos e quermesses no mês de junho, das procissões da igreja da Praça Cornélia, onde eu e meus amigos beliscávamos as…das garotas.
Nessa época do ano, a garoa era mais intensa. Atualmente, as poucas noites frias não produzem mais garoa, contudo as lembranças permanecem. A cidade cresceu muito e sua expansão destruiu muitas belezas, afetando principalmente a natureza, eliminando parques e praças.
Entre as imagens que povoam minhas memórias, encontro o Vale do Anhangabaú como era originalmente, da vargem da Água Branca, com seus campos de futebol, do movimento de chegada e saída dos bons jogadores, alguns craques como Roberto Carlomagno, Tito Carlomagno, Badú, Lanzoni, Joaquim, Alemão, Tchézinho, Chiquinho, Souzinha, Zé Roberto Otero, Carlão e muitos outros.
Nas minhas mais antigas recordações de infância, encontro a época de natal. Minha mãe me levava à Praça do Patriarca, para ver as vitrines iluminadas da loja São Nicolau. Quanta alegria. Depois, íamos até a Rua Direita, tomávamos na Loja Americana, o sorvete americano, novidade na época, e descíamos a galeria Prestes Maia, que ligava a Praça do Patriarca ao Anhangabaú. Nessa galeria, presépios de vários tipos eram montados. Eu adorava ficar apreciando os presépios mecanizados (gosto até hoje). Atravessávamos o vale e subíamos as escadarias do outro lado, próximas a fonte, e saiamos em frente ao teatro Municipal e ao Mappin.
No ar, músicas diversas. Recordo que na Rua 24 de Maio, que nos conduzia até a Praça da República, em frente à Casa Manon, de instrumentos musicais, ouvi pela primeira vez Saudosa Maloca, cantada pelos Demônios da Garoa. Esse conjunto paulistano que acompanhava e interpretava as canções do saudoso compositor Adoniran Barbosa, continua executando suas composições até hoje.
Outra linda composição é Trem das Onze, que fala sobre o filho único, que não pode perder o último trem, lá do bairro do Jaçanã. Pois é, amigos. A garoa nos deixou, o calor absurdo nos envolve até no inverno, o trânsito está insuportável e a violência nos mata em casa, nas ruas, nos parques, nas agências bancárias e, incrivelmente, até nos shoppings.
Nossa cidade é de todos e, talvez, de ninguém. São 12 milhões de habitantes, além da população transitória, que povoam a 25 de Março, comprando para revender, em sua maioria. É uma cidade acolhedora, que possibilita o progresso para quem trabalha com afinco. Em seu dia a dia, proporciona diversão, lazer, cultura, esporte, amor, gastronomia, e tudo que uma pessoa possa almejar.
Vivo nesta cidade há 70 anos e emociono-me ainda ao transitar por alguns bairros a pé, de carro ou de ônibus, recordando-me das alegrias, tristezas, porém com muita saudade da garoa fina e constante que molhava meu rosto de criança.
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