São Paulo: ame-o ou deixe-o

O caminho para o Paraíso é realmente longo, repleto de sofrimento, de percalços de paradas desnecessárias e de angústia por não saber se lá chegaremos à tempo. Nunca imaginei que eu sofreria tanta agonia para chegar ao Paraíso! Afinal, tantas vezes estive lá, mas nunca sofri tanto como neste dia 15 de março!

Saí de Cotia às 12h30, acompanhada de uma de minhas filhas, para uma consulta médica em São Paulo. Incrivelmente a Rodovia Raposo Tavares, que tem sido outro pesadelo para os motoristas, estava com trânsito leve e sem maiores problemas. Assim, chegamos à entrada de São Paulo, no Butantã, em tempo muito hábil para a consulta, que seria às 13h30. Mas aí começou o suplício! O trânsito parecia não sair do lugar. Um tempo para chegar e atravessar a ponte sobre o Rio Pinheiros, passar defronte ao Shopping Eldorado.

Para não pegar o trânsito intenso sob o viaduto que nos levaria à Avenida Rebouças, entramos na Avenida Faria Lima e de lá seguir em direção aos Jardins. Ledo engano! Tudo parado, ou melhor, a passos de tartaruga. Fomos entrando em uma rua, em outra, em outra ainda, buscando um caminho onde houvesse menos trânsito e nos possibilitasse chegar à Avenida Paulista e dali ao Paraíso.

Nada. Sem alternativa. Nem ambulância conseguia um espaço para passar! Nas vias onde cabiam dois carros, havia três e assim, os motoboys também não transitavam. A essas alturas, minha filha reclamava de dor na coluna, eu de dor nos joelhos, nervosa, a ponto de ter um infarto.

Minha consulta? Já era, eram 14h30! Liguei para a clínica, expliquei o que estava acontecendo e informei que ainda me encontrava há um pouco mais da metade do caminho. Perguntei-lhes se seria atendida, após um atraso tão grande e a recepcionista, gentilmente, foi perguntar ao médico o que se podia fazer. Para meu alívio, ele me atenderia. Encurtando o drama, cheguei para a consulta às 15h30, ou seja, duas horas depois do agendado.

Mas aí começava outra preocupação: a viagem de volta. Minha empregada sairia às 17h30 e o enfermeiro de meu marido às 18h! Eu precisava fazer três exames nos olhos, pois era revisão de dois anos de cirurgia de cataratas e só depois passaria pela consulta. Para fazer tudo isso na clínica, levei apenas uma hora e dez minutos.

Acho que Deus teve pena dos meus sofrimentos e a viagem de volta transcorreu satisfatoriamente. Conclui que é mais fácil deixar o Paraíso do que chegar a ele
.
Foi nesta maratona que me lembrei do adesivo que os carros levavam: "São Paulo: Ame-o ou Deixe-o". Há 11 anos eu o deixei. Vivo em Cotia, município próximo de São Paulo, mas continuo a amá-lo, qual mulher de bandido. Apanha, sofre, passa pelo crivo da polícia, é revistada, humilhada, mas todo fim de semana está na porta da cadeia para passar alguns minutos com o homem amado.

Quantos anos se passaram após o uso deste adesivo? Então aquela São Paulo romântica na qual tanto falamos neste site, definitivamente não existe mais. É outra a São Paulo de hoje: estressante, violenta, barulhenta, poluída. Mas continua sendo a metrópole faustosa, que chama com orgulho um país inteiro para vir para seus braços.

É por isso que nós que a amamos não podemos deixar, em momento algum, de cobrar nossos governantes para acudi-la e honrá-la. Transformá-la novamente em uma cidade habitável, agradável de viver, já que ela tem tanto a nos oferecer.

E-mail: [email protected]