Baiano de Ilhéus, eu aprendi a gostar de São Paulo por intermédio de minha tia Lalá, a mais autêntica baiana paulistana que conheci. Minha tia se foi inesperadamente e ao render-lhe minha homenagem, vi que não conseguia dissociar sua imagem e sua vida da imagem de São Paulo.
As primeiras e mais antigas lembranças de minha tia vêm de Pedra Azul, Minas Gerais. Meu tio Elmar tinha se mudado para o Norte de Minas para administrar uma fábrica de laticínios e nós íamos sempre visitá-los. Eu era pequenino, talvez com uns cinco anos. Minhas primas, Graça e Glória Coelho, bebês.
A relação com minha tia Lalá foi assim, envolvida por viagens, férias e alegria. Moramos na mesma cidade, em Itabuna, apenas por um curto período. Depois ela se mudou para São Paulo.
A distância não tornou tia Lalá um parente longínquo. Ela sempre esteve próxima, presente na nossa lembrança, marcada vivamente pelo seu entusiasmo, sua irreverência e alegria contagiantes. Alegria que hoje se apaga um pouco no seio da família Coelho e faz surgir lágrimas com a notícia do seu falecimento.
Lalá era sorriso franco quando buscávamos refúgio em sua casa, por ocasião dos nossos passeios por São Paulo. Era solidariedade quando, por qualquer infortúnio, a família precisava do seu apoio na capital paulista.
Apaixonada pela vida, pelo belo, pela modernidade, era uma baiana que se adaptou plenamente à vida de São Paulo, sem perder o sotaque soteropolitano, sem esquecer jamais a Bahia, Salvador e o Porto da Barra, uma de suas lembradas paixões.
A irreverência era sua marca registrada e faz lembrar fatos, às vezes desconcertantes, como naquele dia em que eu, jovem estudante, cheguei ao seu apartamento na Rua Martins Fontes, depois de enfrentar 36 horas de ônibus na viagem entre Salvador e São Paulo.
Na sala estavam uns compradores para os seus belos quadros de pintura abstrata. Eu tinha estado por lá no ano anterior e mal arriei a mala, antes de me apresentar às visitas, ela tira uma "maluquice" da cabeça e me pergunta em alto som: "O que foi que você fez com a minha empregada no ano passado que a deixou apaixonada?". O que fazer nessas horas? Só restava sorrir.
Vê-la trabalhar na pintura era curioso, pois o sutil conhecimento da combinação de cores, o bom gosto e a sensibilidade abstrata se mesclavam nas exclamações que vinham do seu atelier: "Amanhã vendo este quadro para Abraão".
Além de conhecer a arte da pintura, parecia conhecer as artes do mercado, pois sempre tinha em mente o nome de um provável comprador para o seu futuro quadro. Assim ela fez seu nome em São Paulo, cidade que sempre acolhe os dotados de inteligência e sabedoria. Por tudo que ela foi e representou é que hoje nos sentimos um pouco órfãos.
Para nós, São Paulo não será nunca mais a mesma sem Lalá. Sinto que não deveríamos chorar neste momento, pois em vida ela foi alegria e entusiasmo. Mas não há como conter as lágrimas pela falta que farão o seu apoio, o seu carinho, sua irreverência e os seus palavrões.
A saudade que sentimos de Lalá neste instante nos remete a um pensamento de Da Vinci: "Para estar junto não é preciso estar perto, mas sim do lado de dentro".
Lalá poucas vezes esteve próxima, já que morava distante, mas esteve sempre e continuará do lado de dentro dos nossos corações.
E-mail: [email protected]