São João Clímaco, meu bairro querido

Meu nome é Laise e sou filha do Pompeo. Nasci em 1949, em São João Clímaco, um pequeno lugarejo entre o Sacomã e São Caetano do Sul. A parteira veio, untou tudo com azeite e eu nasci em um domingo lindo, bem na hora do almoço. Talvez, por isso, eu seja um bom garfo. Meu pai dizia que eu era linda, loirinha e mimada. Pelas minhas lembranças acrescento também malcriada.

Meu pai, Luiz Pompei, era uma pessoa muito querida e ainda lembrada por muita, por muita gente. Ele era barbeiro, pescador, muito extrovertido e uma espécie de bruxo bom. Fazia umas poções mágicas para curar verrugas, nascer cabelo, curar micoses e coisas desse tipo. Meu pai era leiloeiro da paróquia, quando tinha quermesse; era sócio da SPM, janista até morrer e meu ídolo.

Minha casa era na Rua São João Clímaco, onde hoje é o Carlos C. uma grande loja de roupas. Só tinha asfalto no meio da estradinha, as calçadas eram de terra, a maioria das casas tinham jardim na frente, inclusive a minha. A água era de poço e de má qualidade. Minha mãe ia buscar água na prefeitura, na Estrada das Lagrimas, onde ficavam os burros e as carroças que recolhiam o lixo do bairro.

Tinha o Seu Antonio, português da quitanda, Seu Joaquim da farmácia, Seu Tobias do correio e o Seu Guerra, um barbeiro concorrente do meu pai, porém amigo. Tinha o bar do seu Teixera, cuja filha chamava Eugenia e era minha amiguinha. Tinha o bazar do seu Altino e um bando de crianças, as quais eram companheiras de ser feliz. Tenho saudades boas dos meus amiguinhos, da Rosinha, da Claudete, do Toninho, Osmar, Edson, Paulinho, Fatima, Francisca e outros dos quais já não lembro mais o nome.

Tinha também o cine Seckler, onde assisti Marcelino Pão e Vinho e conheci os artistas da Caravana do Peru que Fala, o Silvio Santos quando era pobre. Estudei no Manuela do diretor Servulo e no Cepao de doces recordações. Fui aluna e querida da Dona Benedita e do professor Arcanjo.

Brincávamos muito de pular corda, de esconde-esconde, de pegador, todas essas coisas que pertencem ao passado. A maioria dos amigos a vida espalhou. Alguns ainda estão por aqui. Todos são avós, como eu. Todos com um olhar perdido lá no passado, onde os vizinhos colocavam as cadeiras na calçada e jogavam conversa fora.

Lógico que veio o progresso e o meu bairro também cresceu. Não é mais um lugarzinho perdido. É um bairro enorme, com um comércio sempre crescente. Abriga a favela de Heliópolis, uma comunidade que se fundou nos terrenos onde eram os campos de várzea, onde o futebol acontecia pelo puro prazer das disputas. Os saudosistas me perdoem, mas pelo jeito vocês estão quase chorando, então depois eu conto mais. Até breve…

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