Eu me lembro, lá pela década de 50, de uma tecelagem que ficava no quarteirão entre as ruas Loefgren, Primeiro de Janeiro e Mirassol, no bairro de Vila Clementino. Ela foi um marco na vida de muitos moradores locais. Nós crianças, na época, apostávamos corrida até a fabriquinha, como a chamávamos. Se andássemos de bicicleta, patinete ou simplesmente se déssemos uma voltinha, com certeza era a tecelagem o nosso ponto de referência. Os casais de namorados, também marcavam encontros nesse lugar.
Às sextas-feiras, nossos pais nos davam uns trocados para comprar, no final do dia, uma guloseima qualquer. Era aí que nos esbaldávamos; às 18h, quando o apito soava, lá ia toda a gurizada das imediações para o portão da fábrica, onde se aglomeravam os ambulantes esperando pela saída dos trabalhadores. Lá estavam: o amendoeiro com seu amendoim torradinho e quentinho, o homem do quebra-queixo e machadinha, o algodoeiro e Dona Carmem, a mais concorrida com seu tabuleiro de cocadas brancas e queimadas, tão suculentas e macias e as famosas balas de coco, os alfenins que só ela fazia tão bem, derretiam na boca e acabavam em um instante.
O pessoal dizia que as balinhas tinham um sabor especial, quem sabe não seria por causa da fumaça do cigarro que Dona Carmem fumava constantemente, mesmo quando servia os fregueses.
Ninguém notava esse detalhe que na verdade não era muito higiênico. Queríamos mesmo era saborear todas aquelas delícias. A tecelagem Sant'Anna foi desativada. Com o crescimento da cidade de São Paulo e do bairro, é lógico que os moradores não poderiam conviver com uma fábrica, mas gostariam que se preservasse a torre; com certeza não foi possível e hoje no lugar da antiga tecelagem foram construídos prédios bonitos e modernos. Entretanto, não nego que sinto certa nostalgia quando lembro da fabriquinha, do apito no início e no final do expediente, do pessoal entrando e saindo, a pé ou de bicicleta, suados após um exaustivo dia de trabalho.
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