Tive um colega de turma que se sentia profundamente irritado com o preconceito, tanto em relação a nordestinos quanto a ciganos. Indaguei-lhe qual era o motivo e contou-me. Esta não é uma estória, porém uma história, cujo ponto final é São Paulo, cidade de tantos povos. E tem início em 1.943, quando na Romênia ocupada pelas forças do eixo nacional-fascista, a família da jovem Aránia é levada ao acampamento de trabalho familiar (o nome pelo qual os nazistas chamavam os campos de extermínio) de Dachau. Ao entrar no trem que os levaria ao campo, Aránia indaga à mãe o porquê. Pela primeira vez, descobre que sua família era de "rom" (clã cigano que amiúde é sedentário e integrado à comunidade em que vive, com poucos contatos com os outros clãs ciganos, tanto que ela mal sabia de sua origem).<br><br>Em poucas semanas, sob pesados trabalhos, escassa alimentação, todos os de sua família morreram, de inanição, tifo ou nas câmaras de gás. Aránia continuava viva, não por complacência dos nazistas ou por uma constituição mais forte: por sua beleza, juntamente com cinco garotas judias foi recrutada como Nachtarbeiterfraeulein (mocinhas de trabalhos noturnos). O "trabalho" noturno não era melhor do que o diurno: todas as noites eram violentadas pelos soldados, guardas, vigias e oficiais de baixa patente. Ao término do conflito, o campo é tomado pelas tropas aliadas e os prisioneiros libertos.<br><br>Das "mocinhas", só Aránia e uma amiga judia sobreviveram. A amiga, de cujo nome Aránia jamais se esqueceu, Yael Shelvitz, tentou fazê-la passar-se por uma prima, para que pudessem emigrar juntas à Palestina, então sob mandato britânico. O oficial da B'nai Brith, um estadunidense, desconfiou pelo tipo físico de Aránia de que tudo fosse uma mentira. Bastaram algumas perguntas para que a verdade viesse à tona: não falava ladino nem iídiche, nada sabia sobre as ervas amargas da ceia de Pessakh ou do significado da cabeça de peixe na celebração de Rosh ha Shaná. Por mais que Yael tentasse enganar dizendo ser uma prima laica que nada sabia sobre o judaísmo ortodoxo, ou que só falavam romeno em sua casa, a permissão para ir ao futuro estado de Israel só foi outorgada a Yael.<br><br>Um outro oficial lhe falou para ir a Berlim e tentar obter o visto para ir ao Brasil junto à delegação das tropas brasileiras (posto que a embaixada fora fechada quando Getúlio Vargas se aliara aos EUA). Caminhou a pé descalço dez dias e ao entrar no Setor Americano de Berlim, já que o Brasil abrira mão de sua parte em prol dos EUA como pagamento pela Companhia Siderúrgica Nacional, feita com capital estadunidense, procurou um oficial brasileiro, Michel Elias da FAB, e foi dizendo "Guimaráens Roza, Primeiraz Stóriaz, espoza adjuda djude, ele amigo di románi. Eu ker Brazil. Eu románi". Michel entendeu que se referia à esposa de Guimarães Rosa, o autor de "Primeiras Estórias", que auxiliou muitos judeus a fugirem da Alemanha.<br> <br>Rosa era profundo conhecedor dos ciganos dos "Grandes Sertões" e falava románi, a língua cigana. Conseguiu o visto e veio ao Brasil. Fixou-se em São Paulo, onde conheceu um jovem baiano, Alcindo Figueira Santana. Ao ser pedida em casamento, disse-lhe ser estéril, pois os nazistas aplicavam injeções de mercúrio nas Nachtarbeiterfraeulein para evitar as doenças venéreas, e o mercúrio atrofiava os ovários. Alcindo lhe disse que se casava com ela por amor e não por filhos. Mais tarde adotaram um primo em segundo grau de Alcindo. Este menino, cujo nome omito para preservar-lhe a vida privada. Entre 1.974 e 1976 foi meu colega no Instituto de Ensino Imaculada Conceição, na Rua Cincinato Braga, onde hoje está a academia de esportes Competition. Foi quando me contou a história de sua mãe adotiva. Acrescentou-me que dona Aránia acendia todas as semanas uma vela azul a Santa Sara Kali, a padroeira dos ciganos.<br><br>Dizia sempre:<br>- "Santa Sara Kali me trouxe a São Paulo". <br>A estátua estava sempre coberta com o dikló (lenço de cabeça) cigano. Ao lado, uma estátua de Iemanjá, que se sincretiza com Imaculada Conceição nos cultos de matriz brasileira, com manto azul: o senhor Alcindo era adepto do candomblé. Dia 24 de maio os ciganos celebram Santa Sara Kali. Que pena que ela não pôde salvar a todos os cem mil ciganos mortos nos campos de Odessa, Dachau e Schirmeck. O nome de Michel Elias da FAB está no monumento dos heróis da FAB na Rua Curitiba, perto do Clube do Círculo Militar. De Yael, dona Aránia não soube mais nada. No entanto dizia que sua maior mágoa não era contra os nazistas pelo que lhe fizeram e à sua família, mas contra os oficiais estadunidenses que não a deixaram beijar Yael antes de que a B'nai Brith a levasse embora. <br><br><br>E-mail: [email protected]