Sábado insano

Sábado de Carnaval, 25 de fevereiro. A folia estava apenas começando. Eu de bobeira em casa, de papo para o ar, sem ter o que fazer. Acompanhar os desfiles? Não. Pegar uma matinê? Claro que não. Comprar uma fantasia e ir a um baile à noite? Nem pensar. Eis que toca o telefone. Uma amiga muito querida que trabalha na Secretaria Municipal de Esportes acabava de propor algo insólito. Ela dispunha de um ingresso para assistir ao jogo Corinthians X Santo André no Pacaembu, pela 11° rodada do paulistão 2006 e estava me presenteando com o mesmo. A idéia era descabida por um simples motivo: sou PALMEIRENSE e torço com fervor pelo Verdão. Naturalmente que tentei declinar da idéia, mas quando ela disse que o ingresso era VIP e que, durante o intervalo, teríamos direito a um coquetel no Salão Nobre com comes e bebes, a história mudou de figura. Ingresso gratuito, fazer uma boquinha e ainda secar o arqui-rival do Palmeiras? Maravilha. Estou nessa. Passei na casa dela peguei o ingresso e me pus a caminho do estádio. Como era um Sábado à tarde ensolarado resolvi ir de metrô, já que a Estação Clínicas é próxima ao Paulo Machado de Carvalho, o nosso querido Pacaembu. Ainda faltava uma hora para a contenda começar e fui andando calmamente, descendo a Cardoso de Almeida e apreciando as belas casas daquela região da capital paulista. Chegando à Praça Charles Miller deparei com o quadro típico que envolve um time de grande torcida como é o Corinthians. Dogueiros, vendendo sanduíches, refrigerantes e sucos, camelôs oferecendo camisetas falsificadas do time do Parque São Jorge e os indefectíveis flanelinhas, prontos a extorquir dinheiro dos incautos torcedores que buscavam uma vaga para estacionar.
Eu devia entrar pela parte de cima do Pacaembu nos portões que dão acesso às tribunas e arquibancadas cobertas. O setor é separado por grades que não permitem o acesso à outras áreas e vice-versa. Apresentei o convite e fui para o meu lugar. Como não havia praticamente ninguém sentei numa cadeira qualquer pensando que aquela área iria ficar vazia. Ledo engano. Poucos minutos antes do jogo começar as cadeiras foram tomadas, naturalmente por corinthianos trajando camisas do Timão. E eu ali, na toca dos leões, ou melhor dos gaviões. As equipes entraram em campo, o time do Parque São Jorge saudado pela sua torcida, que naquele dia não passou dos 8.000, enquanto os torcedores do Santo André deviam ser uns trinta gatos pingados. E eu pensando na partida do Palmeiras, que jogava em Bauru contra o Noroeste de olho na liderança do campeonato. Do meu lado direito estava um senhor que não parava de fumar enquanto do lado esquerdo um japonês usava uma camisa metade Boca Juniors, metade Corinthians. Começa a peleja. A cada descida do time alvi-negro a torcida levantava e fazia o tradicional "Huuu!" com os gols perdidos. Meu amigo fumante me cutucava com o cotovelo e urrava a cada lance desperdiçado. Ele olhava para mim e dizia: Como o cara perdeu esse gol? E eu ali. Fazendo a mesma pergunta, mas no meu interior contente pelos gols perdidos. Em contrapartida a cada lance do time do ABC eu torcia para que resultasse em gols. Mas o time da Fazendinha fez dois a zero, gols de Nilmar e Rafael Moura e terminou o primeiro tempo na frente. A minha urucubaca não estava dando certo, mas pelo menos agora era hora da comilança. No Salão Nobre, entre um acepipe e outro um garoto de mais ou menos onze anos se aproximou e disse que o jogo seria uma barbada, que o Timão iria golear o Ramalhão. Respondi que o Corinthians estava ganhando, mas jogava mal. O garoto saiu olhando feio. Fiquei na minha esperando o segundo tempo. Quando voltei para a área VIP resolvi ficar mais próximo da saída, pois não iria assistir aquele martírio até o final. Aos 15 minutos em lance na área do Corinthians, o lateral Coelho segurou um atacante do Santo André e o juiz marcou pênalti. O meio-campista Roncato iria bater a penalidade. No gol Marcelo preparava-se para tentar a defesa. Autorizado Roncato correu e converteu para o Santo André. Não me contive e gritei com toda a força dos meus pulmões. "É isso aí. Encham esses corinthianos de gols". Passado meu entusiasmo me dei conta da mancada. Todos me fitavam com olhares que iam do espanto à ira. Meu amigo fumante parou de tragar por um minuto e disse: "O cara é traíra! Põe ele para fora!" Sai em disparada, passando pelos funcionários do estádio feito um foguete rumo à Estação Internacional. Entre um safanão e outro dois caras tentaram me agarrar, mas consegui escapar. Devo ter estabelecido um novo recorde mundial, pois corri do Pacaembu até a estação do metrô em poucos minutos. Só me senti seguro quando cheguei em casa extenuado e sem fôlego. Futebol agora, só pela TV, pois não sou louco para encarar outra dessas novamente.