Rua Una, 29

Em meados de 1959, na Rua do Una, número 29 (localizada no bairro do Bexiga) morava Ambrosina Pereira da Cunha, uma negra,analfabeta e mãe de dois filhos: Vicente e Nilda (Bijuca).

A mulher sobrevivia lavando as roupas de pessoas do bairro e cuidando de crianças das mães que precisavam trabalhar. Foi por conta dessa atividade que fui "abandonado" na casa dela.

Minha mãe Elza, vinda do Chile, teve um desentendimento com meu pai, um peruano e palhaço de um circo que estava de passagem pelo Brasil. Ela havia fugido do circo e resolveu deixar um pequeno brasileiro de quase quatro meses de vida (eu) nas mãos da Dona Ambrosina e esta passou a ser a minha mãe, a quem devo tudo o que sou, mesmo com tantas dificuldades

As recordações que tenho são: o “prédio” do Bispo (zelador) o único da rua, o riacho que corria bem do lado da nossa casa e ia "desaguar" na Praça 14 Bis, as roupas dos clientes que eu ia buscar e levar na Rua Rocha, a efervescência da Rua Marques de Leão, Dona Mafalda , Dona Maria (mãe da Sílvia, Ritinha e de um bebê), os campos das Ruas Rocha e Marques Leão.

A Rua Una era muito curtinha e três famílias viviam ali mas eu tinha a impressão que eram pessoas absolutamente diferentes de todos nós. Eles quase nunca falavam com a pessoas (vizinhos), um deles foi “carinhosamente” apelidado de "zóio de vidro", pois furava as nossas bolas sempre que conseguia pegá-las (jogávamos bola na rua, na porta da casa dele).

Havia também uma família que nunca falava com ninguém e a terceira era a do Marcos. O pais dele só o deixava brincar na rua quando eu estava junto. Embora possa ser uma narrativa estranha e "fofoqueira" estas lembranças que tenho são boas para mim.

Este registro tem como objetivo prestar uma homenagem ao bairro do Bexiga e a minha mãe Ambrosina que me criou. Também lembro com carinho de Dona Maria, Dona Mafalda (esposa Sr Pascoal que muita ajudava as pessoas), Dona Darina (mãe da Leila), Sr Nicanor (que morava no prédio do Bispo) e a todas aquelas pessoas que lamentavelmente não recordo o nome. Todas as pessoas citadas ajudavam a Dona Ambrosina (e também a mim), que além de lavar e cuidar das crianças, benzia e fazia as festinhas de São Cosme e Damião.

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