Na soleira da porta da casa da Rua Silva Bueno, 369 foi onde eu aprendi a chorar. Na vizinhança, a Dona Maria, alegre de tão festeira, trançava balas de coco pra festa da filha Nice, que no sábado ia casar. Neuza, minha vizinha da esquina, me fez sócia nas marmitas da pensão da Madalena, sua tia, que entregávamos todo o dia pro "fregueis". De comissão fisgávamos duas marmitas, com mãos em garra, dois bifes, um pra cada uma, que comíamos pelo caminho até sermos descobertas. O pensionista lesado em seus bifes é que foi denunciar. Adeus marmitas, adeus aos melhores bifes de minha vida. Rua Silva Bueno, 369, na soleira dessa porta aprendi a chorar: era 1946. Um enorme corredor da minha casa feito um túnel me levava até o fim desse mundo onde ficava a cozinha. No fogão de grife "Eterno", de chapa e elétrico, um luxo a época, onde minha mãe de luto cozinhava para nós. O luto pelo pai querido que o enfarte insistiu em levar, cobrindo de panos pretos com galões dourados a porta da casa da Silva Bueno, em cuja soleira aprendemos todos nós a chorar. Depois chegou a Amélia pra ajudar minha mãe. Era devota de Santo Onofre e alimentava meu imaginário infantil com histórias mirabolantes do "santo cachaceiro", posto que ela oferecia bebida para ele tomar. Fui com ela a procissões da Nossa Senhora da Aparecida, cuja Basílica do Padre Mario ainda estava em construção. A sala dos milagres, de pernas e braços de muitas promessas pagar. Vi milagres na Vila Prudente, vi um paralítico andar. Fiquei com essa maluca querida um dia inteirinho a esperar, sem nem água tomar. Amélia do imaginário, Amélia do coração, onde estará a flor negra da minha imaginação?
Fui menina rica de brincar nos jardins franceses do Museu do Ipiranga, majestoso com suas fontes e flores. Fui triste ao voltar para minha casa, cuja porta vestida de luto contava que meu pai havia nos deixado. Continuei triste sentadinha na soleira da porta a esperar minha mãe querida que ia a Santo André receber a pensão, continuo triste hoje na soleira da porta da minha vida, aqui em Franca a chorar por ela, a minha mãezinha, que aos 98 anos se foi, outro dia. Não mais pra pensão ir pegar, foi encontrar-se com André, não o santo, o marido, e pai, lá no céu bem distante, de onde jamais irá voltar. Escola Paroquial São José, Dona Lucia e Antonieta de Felice, Padre Dante e Stanislaw e os judeus mascateiros que os ternos vinham comprar.
Foi assim nas margens do Ipiranga, sob a verde ramagem da Figueira, que aprendi a rir e aprendi a chorar… Na soleira daquela porta na Rua Silva Bueno, numero 369, Ipiranga, São Paulo, Brasil, minha cidade natal.
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