Como disse, morava na Maria Dometila e minha função matinal era buscar leite na padaria da Figueira. Lá ia eu, com o baita ‘leiteirão’ de 2 litros, pois o leite era envasado em garrafas de vidro e, chegando no estabelecimento, o balconista despejava o leite na leiteira, e não era para derrubar nem um pouquinho, nem demorar na rua, senão o assovio de minha tia Carmen (mãe de
criação) ecoava pela janela chamando a atenção. E ai de nós que ouvíssemos o assovio e não viesse correndo… A espanhola era muito amorosa, mas enérgica.
E numa manhã pude perceber que ao atravessar a Rua Queiroga, o Depto. de Água e Esgotos antigo, o D.A.E., tinha aberto um grande buraco por onde eu passava e dele surgia uma água límpida bem clarinha, por certo iam arrumar algum vazamento. Desviei e fui fazer a minha obrigação, buscar o leite. Ao regressar vi os filhos do alfaiate, Sr. Polino, olhando para a atração; eram Agnaldo e Alexandre (os capetinhas) que me vendo chegar disseram: _ ‘Duvido que você ponha o pé na água…’. E eu, como era muito atrevida, não fazia cálculo do perigo e, para mostrar minha valentia, não só pus o pé, como caí no buraco com leiteira e tudo.
E aí???
Foi um corre-corre danado, pessoas tentavam me salvar; como fazer? Era cedo e o que era uma brincadeira tornou-se uma tragédia. Homens do DAE chegaram e, com uma corda amarrada a uma enxada, jogaram no fundo buraco, de onde me içaram ainda sã, mas desmaiada.
_ ‘Foi Deus que a salvou!’, diziam, e foi mesmo. Já reanimada por populares chegou minha tia Carmen (mãe de criação), louca da vida. Como explicaria para minha verdadeira mãe tal acidente?
Minha mãe chamava-se Maria e trabalhava como camareira em hotéis de luxo como o Amália Hotel, o Príncipe Hotel e aposentou-se no Ca’d’Oro Hotel, na Basílio da Gama. Deixava-me cedinho na Maria Dometila e ia trabalhar. À noite me pegava e levava para casa. O negócio foi fogo, além de passar pelo vexame na frente dos meninos, quase me afoguei, apanhei e ainda fiquei de castigo.