O sonho de ser campeão do mundo

Nas duas primeiras copas do mundo 1934-38, o Brasil não tinha a menor chance de pensar em ser campeão. Foi desclassificado logo na primeira rodada. Já em 1938, o Brasil foi mais longe, chegou às quartas de final sendo derrotado pela ótima ‘Squadra Azzura’, que já tinha sido campeã na copa anterior. Mas o Brasil teve a sensação da copa, que foi o jogador Leônidas, que inclusive foi o artilheiro.<br><br>Contou, também, com transmissão de Gagliano Neto (foto), pela Rádio Cruzeiro do Sul, que formou o ‘pool’ de emissoras com a Rádio Clube de Santos e a Rádio Clube de Juiz de Fora, denominada de rede verde e amarela, a primeira formada no Brasil. <br><br>Nos anos seguintes 1942 e 1946, que teríamos copa do mundo, o calendário esportivo mundial ficou vago por causa da II Guerra Mundial. E no ano de 1950, ela voltou a ser disputada e o Brasil foi o escolhido para ser a sede. Os estádios maiores eram o de São Januário, no Rio de Janeiro, e o Pacaembu, em São Paulo.<br><br>Mas um estádio novo teria que ser construído e, pelo decreto do Vereador Ari Barroso, aprovado pela Câmara Municipal do Distrito Federal. Iniciou-se em 1948 a construção do estádio, tido como o maior do mundo e que, no início do torneio, ainda tinha madeiramento a ser retirado.<br> <br>Aí sim, existia o sonho de ser campeão do mundo, afinal o torneio ia ser disputado aqui e o Brasil era tido como ‘o melhor futebol do mundo’. Teve um início meio titubeante, mas com o correr do torneio foi se firmando e, nas duas partidas antes da final, tinha aplicado sonoras goleadas na Suécia e na Espanha: 7 x 1 e 6 x 1, respectivamente.<br><br>O ‘sonho’ já era uma realidade. Ninguém duvidada que o título fosse nosso. No domingo pela manhã, o jornal ‘A Gazeta Esportiva’ trazia a foto dos jogadores da seleção brasileira em fila indiana com os dizeres em letra de forma: ‘Esses são os campeões do mundo’. <br><br>No Rio de Janeiro o sol brilhava no céu azul, mas aqui em São Paulo estava um dia cinzento com garoa pela manhã. Era um domingo com fisionomia triste, contrastando com a alegria do povo por chegar o fim do jogo e a realização do tão sonhado titulo mundial. O jogo começou e todos estavam de ouvidos na emissora preferida, a pan-americana, que tinha o locutor Pedro Luiz. <br><br>Era um jogo nervoso, pois o nosso adversário, o Uruguai, era um famoso adversário de outros torneios sul-americanos e que nos conheciam muito bem. O primeiro tempo terminou 0 x 0. Mas logo que começou o segundo tempo, Friaça marcou o primeiro gol do jogo. Era o gol do Brasil, o gol do título. No bairro que eu morava, Itaim Bibi, o foguetório era indescritível. Meu pai soltou todos os ‘caramurus’ que tinha comprado. <br><br>Minha mãe o advertiu: – ‘Ângelo, deixa para soltar depois que o jogo terminar.’<br><br>- ‘Que nada Orlinda, esse título está no papo. O empate é nosso e já estamos ganhando de 1 x 0, já no segundo tempo.’<br><br>Mas aos 15 minutos, um tal de Squiafino engrossou o jogo para o Brasil, embora ainda fôssemos os campeões com aquele resultado; quando o cronômetro marcava 37 minutos da fase final, eis que o ponta-direita Ghigia escapou e o nosso lateral Bigode, instruído para não fazer aquilo que mais gostava, que era dar ‘botinada’, deixou o rapaz ir bem perto do gol e fulminar o nosso goleiro Barbosa. Daí até o final do jogo foi um sofrimento e o nosso locutor, que falava rápido, estava engasgando, para não dizer soluçando, quando o juiz apitou o final; era o final do sonho.<br> <br>Um sonho que voltaria em 1954. Aí tudo era diferente. Nova camisa, já que a branca com calção azul tinha ‘dado azar’. Agora era amarela, que já tinha sido colocada no corpo dos jogadores dois anos antes, no pan-americano do Chile. E o Brasil tinha ganhado pela primeira vez um titulo sul-americano fora do Brasil. <br><br>O sonho voltou e o Brasil, na primeira partida, goleou o México por 4 x 0. Todos aqui no Brasil já sonhávamos com o titulo de campeão. Íamos jogar com a Iugoslávia e era um jogo duro, que estava 1 x 1, e os brasileiros dando duro para vencer. Os Iugoslavos chamavam a atenção dos nossos jogadores para o fato de que aquele resultado de empate classificaria os dois países, mas os brasileiros não entendiam ‘bulhufas’ do que eles gesticulavam. <br><br>O jogo acabou empatado e os jogadores, tristes por mais uma desclassificação, só ficaram sabendo que tinham se classificado quando estavam no ônibus de volta ao hotel. Brandãozinho, o nosso centromédio, disse que foi um jornalista que foi lá cumprimentar os jogadores pela classificação e só ai é que ficaram sabendo que não haviam sido desclassificados. O sonho estava vivo, ainda, e o Brasil ia jogar contra a poderosa seleção da Hungria, tida como a favorita do torneio. <br><br>Era um domingo de sol aqui e, pela manhã, por causa do jogo do Brasil, Portuguesa de Desportos e Botafogo jogavam no Pacaembu, pelo torneio Roberto Gomes Pedrosa. Acho que os jogadores estavam querendo ir embora logo, pois o jogo do Brasil começaria em torno de meio-dia. Então, todos resolveram brigar e o árbitro expulsou os 22 jogadores. <br><br>O rádio transmitia daquele jeito, que mal se ouvia o que o locutor falava. Eram as ondas marítimas de onde vinham os cabos de transmissão em que as ondas davam um barulho maior que a voz do locutor, e saía do ar toda hora. Mas ainda assim, deu para saber que o Brasil tinha sido derrotado por 4 a 2, num autêntico vexame. Eu, já com 15 anos de idade, um autêntico idiota, perguntei pra minha mãe: – ‘E agora, com quem vai jogar o Brasil?’ <br>Ao que ela responde: – ‘Vai é voltar para casa, burrinho!’<br><br>Mas o vexame não foi só pela derrota, mas pela agressão que o árbitro Arthur Elliz sofreu de um jornalista brasileiro fanático. Toda a imprensa disse que o Brasil tinha sido roubado. Veio a copa de 1958 e todos os brasileiros, cansados de sonhar, viam a nova seleção com expectativa de sucesso, mas não tanto como antes. Eram jogadores jovens mesclados com alguns veteranos, jogando amistosos aqui no Brasil. A seleção não mostrava um bom rendimento e no último amistoso, aqui no Pacaembu, contra o Paraguai, no empate de 0 x 0, saiu de campo estrepitosamente vaiado. <br><br>Depois fez um jogo treino contra o Corinthians, já na fase do “faz-me rir”, e deu uma sonora goleada de 5 x 0. Foi para a Europa e jogou dois amistosos, ganhando os dois também de quatro. Na copa do mundo começou bem, vencendo a Áustria por 3 x 0; já no segundo jogo, empatou de 0 x 0 com a Inglaterra e logo começou-se a pensar em ver a seleção de volta antes da hora. <br><br>Mas no terceiro jogo, contra a incógnita União Soviética, vencemos por 2 x 0 e fomos para as oitavas. Aí era um jogo fácil, contra o País de Gales. Mas o empate de 0 x 0, até quase o final, estava nos deixando aborrecidos e tristes por mais um vexame. Foi quando um garoto de 17 anos fez uma jogada mirabolante, marcou o gol que seria o da vitória e colocaria o Brasil nas quartas de final contra a poderosa França, que tinha o ataque mais forte do campeonato, inclusive, com o já artilheiro Just Fontaine. Era o ataque mais realizador e a defesa que não tinha tomado um gol sequer. <br> <br>Logo no início do jogo, o Brasil marcou com Vavá. Cinco minutos depois, justo ele, o Just, marcou o gol da França. Aí Didi, com uma ‘folha seca’, colocou o Brasil em vantagem. Pelé marcou mais gols e o Brasil foi à final contra a Suécia. No jogo final, a seleção brasileira não tomou conhecimento dos donos da casa e venceu com autoridade.<br> <br>O sonho dos brasileiros estava realizado. <br><br>O locutor Edson Leite dizia lá da Suécia: – ‘Brasileiros, saiam às ruas, comemorem!’<br>Mas um rapaz de Santo André fez o contrário, suicidou-se. E deixou um bilhete a quem pudesse interessar: – ‘Agora que o Brasil é campeão do mundo, não interessa continuar vivendo’.<br>