Rua Pióchi

Todo mundo sabe aqui no site que tenho uma grande curiosidade sobre a origem dos nomes. Tanta curiosidade se torna até mesmo uma obsessão. E já escrevi sobre nomes de estabelecimentos comerciais etc., aqui mesmo.

E todo mundo sabe também que boa parte dos nomes de nossa cidade são de origem indígena. Muitos nomes de bairros e logradouros tiveram inspiração no tupi-guarani. Querem exemplos: Cambuci, Ibirapuera, Anhangabaú, Moema, Jaçanã, Butantan, Guaicurus, Tupinambá, Jacurici, Apinagés, Caiowas, e daí vai.

Agora o que se passou com meu amigo Dominguinhos no dia em que chegou a São Paulo vindo do Nordeste é hilário, ou triste, pelo menos pelo tempo que ele perdeu para perceber o erro.

Dominguinhos, na época morador de Campina Grande, Paraíba, vivia trocando correspondência com seus parentes que moravam aqui na nossa São Paulo. E carta vai, carta vem, de tanto dizerem que a vida aqui era isso, que a vida aqui era aquilo, uma maravilha, ele se viu atraído pela nossa grande cidade. E para aqui rumou à procura de seus parentes. Devo deixar claro que eles o haviam convidado. O Dominguinhos não era assim tão oferecido, pelo menos na época.

Então, Dominguinhos tomou coragem e um ônibus e desembarcou na rodoviária, deslumbrado com a grandeza dos arranha-céus, das grandes avenidas e o intenso movimento dos carros.

Logo que chegou à rodoviária tratou de tomar um táxi rumo ao endereço passado na última carta enviada pelos parentes "paulistanos". Acontece que Dominguinhos, ainda não tão familiarizado com os nomes dos bairros e ruas, do jeito que leu na carta, falou pro motorista do táxi a direção – Toca pra Rua Piochi -, inda com o característico sotaque fresquinho de Campina Grande acabou virando Pióchi.

O taxista, desconhecendo a localidade, a tal da Rua Pióchi – e olha que pra taxista não conhecer é difícil – pediu pro meu amigo uma referência, que, evidente, ele não tinha. A única coisa que ele lembrava das cartas dos parentes é que ela deveria ficar próxima a um Mercado Municipal. Dominguinhos havia lembrado que os parentes costumavam fazer compras aos sábados nesse mercado. Lera em uma das cartas.

Bem, o motorista pensou e concluiu que tinha apenas três opções: o Mercado da Cantareira, o Mercado de Pinheiros e o Mercado da Lapa.

A primeira opção foi descartada logo de cara. O motorista conhecia bem a região do Mercado da Cantareira. Com seu conhecimento ali era impossível existir uma rua com esse nome.

A segunda opção, o motorista hesitou, mas acabou tocando o carro pra lá. E depois de rodar quase todas as ruas da região e perguntar para um cem número de pessoas, acabou concluindo que também não era por ali.

Assim, só lhes restava a opção do Mercado da Lapa. Inda bem que Lapa e Pinheiros, além de não serem nomes indígenas, ainda são relativamente próximas.

Sei que rodaram um bom tempo na região e nada de encontrar a tal da Rua Pióchi. Pararam em pelo menos 7 padarias, 4 farmácias, 5 bancas de jornal, 2 postos de gasolina, enfim, quase todos os estabelecimentos comerciais do pedaço e nada de achar a bendita.

O motorista, quando já quase estava perdendo a paciência e o Dominguinhos achando que ia ter que trabalhar pelo menos o primeiro ano inteirinho em São Paulo só pra pagar a corrida do táxi, resolve pegar a carta da mão do Dominguinhos e dá uma bruta exclamação.

– Escutaqui. Olha! Tá escrito: Rua Pio XI e não Pióchi! Pô, meu amigo! Essa todo mundo conhece. E nós passamos por ela pelo menos umas quatro vezes!

É, todo mundo conhece, menos o Dominguinhos!

O pior é que ele leu o Pio XI talvez achando que fosse mais um nome indígena. E ainda pronunciou como sendo xi de Chile. Se ao menos tivesse lido xi de táxi, de repente, o motorista até tivesse matado a charada, com x de xícara.

Sei que essa rua o Dominguinhos nunca mais esqueceu. Mas acabou se atrapalhando com outra: Rua Conslafaiete, ou seja, Conselheiro Lafaiete. Etâ, Dominguinhos!

Não são mesmos eXtraordinários a nossa língua, os nomes das ruas de São Paulo e, principalmente, o meu amigo Domingos!

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