Os incríveis anos do século XX – Parte I

(Décadas de besteirol generalizado)

Em outubro de 2008, estávamos eu (Ciccio/Wilson), Gigio/Giovanni e o Ginà/Reginaldo, recepcionando nosso amigo Cecco/Francesco, há 30 anos morando em Nápoles e que veio nos visitar. O lugar? Não poderia ser outro: O Bar Brahma! E, quando se reúnem "Os Quatro Cavaleiros da Porca-elipse", desculpem-me os leitores, só pode dar m… Nenhum assunto é sério. Nada é sagrado. E tudo degenera em gozação. Tudo "apparlato" (falado) numa miscelânea de Português, patuá da Mooca e Italiano, que rápido descamba para o dialeto napolitano.

Lá estávamos relembrando "cousas e lousas" de um tempo que não volta mais…

Não me perguntem por que a conversa tomou esse rumo – O Besteirol. E não me cobrem datas, porque não lembro e não vou lembrar nunquinha. Nem me cobrem ordem ou cronologia. O besteirol não é algo que se fixa no tempo. Ele é uma espécie de Caos que não se ordena e que vai transitando pelas décadas. Extrapola a data do seu aparecimento, deixando a interrogação do quando começou, ou do por que começou. É como a fênix: morre por um tempo e renasce das próprias cinzas.

Lembro dos "Cadernos de Recordações", com cem perguntas, que as meninas do quarto ano do Grupo Escolar nos davam para responder: Qual seu prato preferido? R: Não como pratos. Quem você levaria para uma ilha deserta? R: Todos. Menos você! Como você é? R: Lindo! Louro, três olhos azuis, duas bocas sem dentes e um rabo…

Depois vieram os versinhos nojentos, crônicas infames: "Querida, vamos comer ferida?/ Ferida não, amor./ Prefiro chupar tumor./ Tumor não me seduz,/ que tal uma taça de pus?" Ou, "Batatinha quando nasce,/ esparrama pelo chão./ A menina quando dorme/ mija sempre no colchão". E crônicas pastorais: "…os passarinhos pastavam alegremente e as vacas pulavam de galho em galho, à procura de seus ninhos…"

De repente, a mania das histórias com marcas de sabão em pó: "O 'Rinso' disse para 'Minerva': Não te 'Omo' mais. 'Minerva' então, pegou um revolver e 'Pox'! Matou-se." E histórias com carros: "… Ele não Ford e nem sai de Simca…"; "Com uma Mercedes dessa você não tem medo de "mau-olhado"? Que nada! Qualquer coisa, a Mercedes BENZe…."

Em algum momento que não sei quando, apareceram quadrinhas cantadas com duplo sentido: "Ah! Coelhinho./ Se eu fosse como tu./ Tirava a mão do bolso/ e enfiava ela no… Coelhinho, se eu fosse como tu…";

E paródias cívico-musicais: Protofonia do Hino Nacional: Laranja da China, laranja da China, laranja da China! Banana, "mixirica" e tangerina…, Hino da Independência: Japonês tem quatro filhos, dois magrinhos, dois gordinhos. Os magrinhos comem bastante, os gordinhos tomam purgante…, Hino da Pátria: Arroz nós queremos com feijão! A pinga nós queremos com limão! Mas se a Pátria amada precisar da macacada, p… m… que cag…, eu não vou, eu não vou, não…

E os monótonos e irritantes cantos infinitos, ou até que se fique de saco-cheio: "Uma casinha branquinha na praaiaaa… Duas casinhas branquinhas na praaiaaa… … … … 200 casinhas branquinhas na praaiaaa… … … … 1000 casinhas…"; "Um elefante incomoda muita gente. 2 elefantes incomodam muito mais. 3 elefantes incomodam muita gente… … … 1000 elefantes incomodam muito mais…"

Depois veio a moda do "não quero nem saber": Não quero nem saber quem pintou o cavalo branco do Napoleão!; Não quero nem saber quem pintou a casa verde!; Não quero nem saber se a boca da noite usa batom!; Não quero nem saber se a boca da noite tem mau hálito!; Não quero nem saber se o céu da boca tem estrelas!; Não quero nem saber se o pé-de-vento tem chulé; Não quero nem saber se o pé do ouvido usa tênis, sapato ou sandália!: Não quero nem saber quem esticou o pescoço da girafa, ou se ela tem torcicolo!…

E as pérolas: Tô chamando urubu de meu louro!; Passarinho que come pedra sabe o c… que tem!, Urubu voando alto quando está de azar, o debaixo c…-lhe em cima!

E a "obra-prima" dos anos 70: "Boy" que é "boy", não come mel. Chupa a abelha e palita os dentes com o ferrão!

Na crítica ferina contra o "slogan" dos militares repetíamos: "BRASIL, AME-OS OU DEIXE-OS"! E, como muita gente não tinha vocação pra ser "Maria batalhão", pra gostar de "milico", a debandada foi geral. E dizia-se que o Brasil continuava sendo um país de muitos caciques e poucos índios… Exatamente como nesse início do século XXI.

E, um belo dia, Jesus Cristo vira "Zuza", vira J.C.! Deus, vira "O homem, lá em cima. Vira o "boss", o Grande Pai-branco… " Nossa Senhora Aparecida, vira "Cidão".

E mulher que gostava de rapazes mais novos, vira "comedora de anjos"; mulher que indiscriminadamente dava em cima de homens, vira "mulher cafajeste". E "mina" muito "enturmada" com rapazes, vira "galinha".

O Sodomita que tinha virado efeminado, "mariquinha" evolui para Viado, torna-se Bicha, bichinha, bichona, vira também "gillette" (que corta dos dois lados – ou seja: é ativo e passivo.), vira "entendido" e, finalmente se firma no "status" de Gay. Embora o adjetivo "Boiola" seja muito usado, ainda. E os que antes eram "Artistas Transformistas" saem dos palcos para as ruas e viram Travestis, depois "Drag-queens", e retornam ao "status" de Travestis, mais conhecidos como Traveco, Travecão. Hoje são Transsexuais…

Mulher masculinizada conhecida como Lésbica vira "mulher-macho", depois Paraíba. Nos anos 60 viram Sapatão, depois Pezão, Tonho dos Coturnos, "entendida" e volta a ser Lesbão, Sapatão. Depois vira definitivamente Gay…

E não mais íamos à Zona fazer sexo: Íamos lá, "molhar o biscoito"…

De repente, vira moda ser Hortelino Trocaletras: Aonde você vai? Vou até a Prassé da Ça (Praça da Sé); Onde você foi? Na Cloacqua Bevilóvis (Clóvis Bevilacqua); Onde ele está internado? Na Santa Cordia de Misericasa (Santa Casa de Misericórdia)…

E os "velhos ditados" inundam a cidade: "Quem dá aos pobres fica na mer…"; "Quem ri por último é retardado."; "Dinheiro não traz felicidade. Manda buscá-la em Londres, Milão, Paris…"; "Nem tudo o que reluz é ouro. Pode ser platina, diamantes…"; "Não deixe para amanhã o que podes fazer hoje. Simplesmente não o faça!"; "O ócio é a oficina do diabo. Mas que lugarzinho bom para se ficar!"… E aquele ditado safado, usado pelas bichinhas: "Quem "dá" aos pobres, empresta a Deus"…

E a pérola das pérolas: Uma vizinha comenta com a outra: Meu filho não que ir mais à escola. Por quê? Ele disse que viram a tal da "loira do banheiro"… Bobagem, amiga! Diz pra ele não ter medo, não. É só uma funcionária fantasma…

Então, chegava o carnaval com suas marchinhas corrompidas pelas paródias: "Vomitaram em mim!/ Foi macarrão./ Tinha cebola, tinha tomate e pimentão.. (breque)./ Três grãozinhos de feijão!"; "Mulata bossa-nova,/ Caiu no hully-gully!/ Encoxa ela!/ Yêê-yeye, ye-ye-ye-yêeeee! Atrás da passarela…"/; "Se você pensa que cachorro é gato./ cachorro não é gato, não./ Cachorro faz xixi no poste/ E gato faz xixi no chão…"; "Olha a cabeleira do Zezé!/ Será que ele é?/ Será que ele é?…" / ( e o coro de foliões respondia: "Bichaaaa!!!")…

Continua…

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