Quando criança, uma das brincadeiras que mais gostava era a de andar de carinho de rolimã pelas ladeiras das Perdizes, principalmente pelas ruas mais próximas a minha casa. Duas dessas ruas eram a própria Rua João Ramalho onde morava e a Rua Caetés.
Hoje fico imaginando o quanto devíamos perturbar as pessoas que moravam nas casas onde passávamos com os carrinhos em frente, não somente pelo barulho que fazíamos, como também pelas marcas das rodinhas dos carrinhos, ou mesmo por quase atropelar as pessoas que transitavam pelas calçadas.
Como essas ruas são ladeiras bem fortes, há muitos degraus nas calçadas e a nossa maior alegria era "voar" por esses degraus com o vento batendo forte no rosto. Está certo que destruíamos todo o calçamento em frente às casas, mas essa era a menor das nossas preocupações.
O problema mesmo era quando um eixo partia, quando perdíamos a direção do carrinho ou quando ele tombava e saia todo mundo rolando pela calçada, porque, quando isso acontecia, os outros que vinham atrás, tentavam desviar e aí era uma confusão só, de carrinhos e meninos para todo lado.
Uma das maiores emoções era quando nos aproximávamos da esquina, por dois motivos: um era a própria curva que se aproximava, pois, pela velocidade que atingíamos, dificilmente se escapava de uma derrapada; e a outra era porque, pela falta de visão, nunca se sabia o que iríamos encontrar no final da curva.
Segunda-feira depois da escola era o dia da oficina, quando consertávamos os carrinhos que tinham ficado semi-destruídos pela competição do final de semana. Corríamos pelas construções e oficinas do bairro em busca de pranchas, sarrafos e rolimãs para as reformas necessárias. Tinha donos de oficinas que já nos conheciam e, de longe, já informavam que não tinham o "material", ou o contrário, estávamos passando em frente, ainda com o uniforme da escola e nos chamavam para nos dar um rolamento recém tirado de algum carro.
Não esqueço de quando resolvemos fazer uma "jamanta", um carrinho articulado, com três segmentos, cabia ali pelo menos uns 10 garotos e todos tinham algum tipo de responsabilidade na condução, pois tinha freio em todos os eixos, fora o jogo de corpo que todos deveriam ter na curva da esquina.
Lembro que, quando ficou pronto, não íamos muito alto na rua, pois precisávamos aprender a andar nesse carrinho gigante. Depois de duas ou três tentativas, já acostumados com o monstrengo, resolvemos descer a João Ramalho, desde a Rua Ministro Godoy e entrar à esquerda na Rua Dr. Franco da Rocha.
A velocidade era indescritível, a gritaria também e, quando entramos na curva, quem disse que o carrão obedeceu? Entramos direto embaixo de um jipe Land Rover do pai de um dos nossos amigos, que também estava no meio da turma. Felizmente nada de mais grave aconteceu, somente alguns cortes e arranhões, um que, inclusive, guardo de lembrança até hoje no meu cotovelo.
Outra lembrança que ainda guardo forte na memória foi quando, já um pouco maiores, descobrimos uma rua perto da TV Tupi, no alto do Sumaré. Essa rua era toda asfaltada, o que na época era uma raridade, e apesar disso, não tinha muito movimento de carros, mesmo porque, no início da década de 70, São Paulo ainda não era a megalópole que é hoje, com um carro para pouco mais de dois habitantes.
Bem, essa rua foi um achado, não me lembro o nome dela, mas era uma rua com uma descida bem acentuada, que fazia uma curva longa para a direita e acabava numa espécie de praça, com uma única árvore, e que tinha uma grelha para a captação da água da chuva, da qual devíamos escapar dando uma derrapada, senão o tombo era grande.
Apesar do pouco movimento de carros nessa rua, de vez em quando acabávamos assustando um ou outro motorista mais distraído, quando os ultrapassávamos fazendo a maior gritaria pelo grande feito. Alguns nos xingavam, outros aceleravam para não nos deixar ultrapassar, mas a maioria achava graça mesmo.
Hoje, não tenho ideia por onde andam todos aqueles amigos que julgávamos que seríamos inseparáveis pelo resto da vida, pois, logo depois, mudei do bairro, fui morar na Santa Cecília, depois na Mooca e agora já estou há 30 anos morando no Tatuapé, que é também um bairro de longas ladeiras, mas que, pelo grande movimento de carros, como também pela mudança de hábitos das crianças, não vejo-as aproveitando aquele tipo de brincadeira que, apesar de ter seus perigos, com certeza não sai da lembrança daqueles que um dia puderam aproveitar o vento batendo no rosto, o barulho da rolimã correndo na calçada e um ou outro grito de alguma pessoa assustada com a passagem do carrinho.
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