Memórias da primeira pescaria paulistana

(Paulo Eiró-poeta de Santo Amaro)

Rosa seca e desfolhada,
Oferta de minha irmã,
Já não recendes no campo,
Já não te orvalha a manhã…

(Casimiro de Abreu)

Como são belos os dias
Do despontar da existência!
Respira a alma inocência
Como perfumes a flor;

O mar – é lago sereno,
O céu – um manto azulado,
O mundo – um sonho dourado,
A vida – um hino d'amor! …

Relendo os belos versos nesta noite fria de inverno, meu pensamento voltou à infância, lá pelos idos anos da década de 50, na terra de Paulo Eiró das botinas amarelas, ou seja, nas bandas de Santo Amaro, aonde viemos morar deixando para trás os sertões bravios da noroeste…

O vento frio que do sul vinha nas frestas da janela, sibilava como se prenunciando um amanhecer invernal, com geadas e névoa envolvente que então existiam.

Recordo-me de meu pai em certa madrugada de verão, quase ao alvorecer, aquecendo o motor do já velho Ford, e minha mãe preparando os lanches e refrigerantes para a grande e primeira pescaria que iríamos realizar em São Paulo juntamente com dois amiguinhos que nos aguardavam na frente de nossa casa. Ambos estavam com suas varas e mochilas abastecidas. As iscas de minhocas que na véspera tínhamos caçado e as latinhas cheias e furadas para ventilar.

Destino: lá pros lados do Bororé, no extremo sul de Santo Amaro, que, naquela época, era o que poderíamos dizer… Uma viagem.

Alegria total e meu pai dirigindo e cantando com a voz de tenor que tinha: "Noite alta, céu risonho, a quietude é quase um sonho o luar cai sobre a mata qual uma chuva de prata de raríssimo esplendor…".

Chegamos ao destino. Alegria! Lançamos as primeiras tentativas com as varas de bambus cujas linhas e anzóis já prontos estavam. Só ouvíamos o cantar dos pássaros e o repicar das águas límpidas cujos murmúrios transmitiam tranquilidade quando nas margens pousavam…

-Meninos, façam silêncio para não assustarem os peixes! – meu pai orientando-nos.

O tempo passa, o sol já brilhando prenunciando o forte calor naquele dia de verão, eis que um grito quebra a monotonia:
– Peguei! Peguei! Tio, tio – era assim que chamavam meu pai – ajude-me!
Todos olham e meu pai adentra à represa, pois a linha não saía; e eis que surge na ponta do anzol: um sapato velho e encardido.

A risada foi geral e até meu pai riu e tirou uma foto na máquina Kodak "caixote" cuja lembrança até hoje temos guardada.

Depois, como que por encanto, começamos a pegar um peixe atrás do outro, cujo nome conhecíamos por Cará. Quantos pegamos, não sei, mas foram muitos, os quais foram divididos igualmente a todos.

O sol já forte pedia uma pausa e sombra para os "mestres pescadores"; lanches e refrigerantes terminaram…

-Vamos embora? – Pergunta o meu pai.
O calor e o prenúncio de um temporal "decidiram" e eis nós de retorno; felizes e orgulhosos sentindo-nos como "grandes pescadores".

Esta foi a nossa primeira e inesquecível pescaria paulistana…

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