Estava lendo uma das histórias destas páginas, escrita pela Rita Cássia Oliveira, com o título de Perdizes, meu bairro, onde ela fala que estudou no Colégio Santa Rosa de Lima, do Frei Vicente e do cheiro da massinha que os alunos usavam, que acabei me transportando para o início dos anos 60, quando também estudei nesse colégio. Minha professora do Jardim de Infância foi a Dona Olga.
Também lembro de ir às missas de domingo pela manhã, que eram as missas das crianças, mas, o que mais nos animava a ir era mesmo a seção de cinema que passava no subsolo, logo depois da missa, onde, invariavelmente assistíamos aos Três Patetas. Realmente, esse grande personagem que foi o Frei Vicente, era um visionário para a sua época, pois conseguia fazer com que as crianças e, principalmente os meninos, não perdessem as missas, nem que fosse só para assistir aos filminhos depois.
Mas o que quero contar hoje passou-se muitos anos depois, já na década de 70 e eu estudava no Zuleika, um colégio estadual que fica na esquina da Rua Padre Chico com a Avenida Pompéia. Tinha algumas turminhas que eu fazia parte e, uma delas era a de três meninas que tinham um ano a mais que eu e, conseqüência disso, estavam um ano à minha frente na escola.
Nessa época eu já morava na Alameda Nothmann e trabalhava na Rua Major Sertório. Continuava a estudar no Zuleika e acho que foi a época que mais fui a cinema na minha vida, pelo menos uma ou duas vezes por semana lá ia eu e as meninas assistir a algum filme no centro, que alguns chamavam de Cinelândia, pela quantidade de cinemas que havia. Acabei perdendo o ano na escola, por causa de faltas, acho que até elas também.
Mas, o que a história de cima tem a ver com esta? O cheiro, cheiro de pipoca quentinha saindo das máquinas do Cine Ipiranga. Era uma tarde um pouco fria, garoenta, típica de São Paulo, quando fui para a fila do cinema comprar ingressos para a seção das 20 horas e íamos assistir "O Exorcista". Fomos eu, a Cris, a Ritinha, a terceira menina do grupo, que agora não recordo o seu nome e um outro colega da escola que estava de carro. Apesar de ter chegado cedo para comprar os ingressos, eles chegaram tarde para entrar na fila da entrada e acabamos assistindo o filme na platéia do terceiro andar e sentados nos chão.
Depois daquele filme assustador para a época, tivemos que descer as escadas, por um corredor muito estreito, não cabiam duas pessoas lado a lado, e mal iluminado. Imaginem o que passava nas nossas cabeças. Bem, chegamos vivos à calçada e ficamos esperando o nosso colega buscar o carro. Enquanto esperávamos, a temperatura tinha caído bastante e havia chovido muito, quando um menino de rua, todo molhado e gelado, se aproximou de nós por traz para pedir uma esmola e pegou na mão, se não me engano da Cris. Ela levou um susto tão grande, começou a gritar, a outras meninas também gritaram e o menino, sem entender nada, fugiu como um louco daqueles loucos que estavam em frente ao cinema.
Não acabou aí, fomos para o colégio, ficamos esperando o Wil, na época namorado da Ritinha (hoje são casados), e depois que ele veio pegá-la eu e a Cris, que morávamos perto um do outro, fomos a pé até o ponto de ônibus. Por causa da chuva, só a Rua Padre Chico e a João Ramalho, que são continuação uma da outra, tinham luz. Todas as transversais estavam às escuras. Caminhamos até a Rua Caiwoaa para pegar o ônibus, mas ninguém tinha coragem de ir até o meio do quarteirão onde ficava o ponto. Depois de muita conversa, consegui convencer as meninas e, chegando ao ponto ficamos esperando o ônibus que não chegava nunca quando, de repente, um barulho muito grande e um clarão azul-esverdeado que iluminou toda a rua e, aí sim, tudo ficou escuro!
Tinha estourado o transformador que ficava na esquina. Noite fria, chuvosa, depois do Exorcista, e numa rua totalmente escura e com duas amigas à beira de um ataque de nervos, não quero lembrar de mais nada, é melhor voltar para a realidade de 2010.
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