Mudamos para a rua Igaratá, na Vila Prudente, para ficarmos perto do meu avô que morava na Mooca. Eu tinha quatro anos para cinco e fiquei deslumbrada com tanto quintal, um jardinzinho e um corredor bem longo até a rua, onde eu podia correr com meu velocípede novo.<br> <br>Na frente morava a Ivone, uma mulatinha alta e bonita, duas casas para o lado direito morava a família do verdureiro e sua neta Rose, que parecia uma cigana, morena clara, vestidos coloridos estampados de flores. Ambas as meninas eram mais velhas do que eu, mas me apeguei a elas e elas a mim, nos tornamos inseparáveis.<br> <br>Na casa do velho verdureiro havia uma carroça no quintal, cheia de palha, onde nos atirávamos e brincávamos de esconder. Um dia porem a Rose caiu da carroça e machucou a cabeça no chão de cimento e isso marcou o final da carroça de palha para nós. Mas tínhamos outros lugares preferidos. Um deles era o parquinho no final da rua Igaratá, onde a gente ia virar cambalhotas, usando calças de pijama embaixo do vestido.Calças compridas eram tidas como vestimenta masculina e menina nenhuma usava. Daí a necessidade de usar calças de pijama!<br><br>Outro lugar preferido era o quintal da Ivone, que era enorme, cheio de árvores frutíferas. A Ivone era a filha mais nova de uma família grande. Moravam numa casinha humilde, creio que o telhado era de zinco. O terreiro era de terra batida, galinhas ciscavam em volta. Às tardes dona Conceição sentava à porta, as crianças apanhavam frutas das árvores e eu junto, comendo bolo de fubá, tomando café com leite, como se fosse outra filha da família.<br><br>Lembro que ficávamos na rua até anoitecer. Lembro da correria que fazíamos com outras crianças, da sensação de liberdade, da alegria de rolar na grama, tudo sem adultos controlando. Hoje me admiro disso, eu tinha só cinco anos e corria pela rua Igaratá sem que minha mãe me chamasse a cada minuto. Não posso nem imaginar minha neta fazendo tal coisa!<br><br>Num Carnaval, toda a criançada da rua se fantasiou. Alguns não tendo fantasia, apareceram com uma roupa de papel crepon. Estávamos nos divertindo a valer na pracinha quando começou a chuva. Os de papel crepon não poderiam ter corrido mais rápido para casa, no meio da gritaria e risada geral. Alguns moleques ainda ajudaram a chuva um pouquinho, puxando a saia de papel molhado das meninas. No dia seguinte o comentário geral era de que alguns chegaram em casa quase sem roupa.<br><br>Nos fins de semana, especialmente quando chovia, meu pai me ajudava a fazer uma casinha de bonecas de dominós no chão da sala.Com os dominós íamos fazendo os cômodos da casa e depois eu a enchia de moveis de boneca. Meu pai fazia comidinhas de massa de cor e sal, pareciam de verdade. Eram bolos de aniversário, travessas de frutas, panelinhas, tudo tão bem feito. Meu pai tinha muito jeito para fazer estas coisas, nunca mais vi nada feito com massa de cor e sal que fosse tão perfeitinho.<br><br>Eu dou muito valor hoje em dia para a atenção que meu pai me dava quando criança. Acho que isso contribuiu muito para a pessoa que eu sou hoje, com bastante segurança e forte nas horas difíceis.<br><br>Uma tarde a Rose estava brincando em minha casa; subimos ambas na janela da sala e pulamos dali várias vezes. De repente, depois de um pulo em conjunto olhei para a Rose e vi que ela estava ficando…verde. Não posso descrever de outra forma, seu rosto tomou uma cor esverdeada. Ela despencou para o chão e eu fui correndo chamar a minha mãe, que a carregou para a casa do avô verdureiro. Ela tivera uma congestão e ficou doente por algum tempo. Senti muito a falta da minha amiga e de algum modo, depois da congestão nossa amizade nunca mais foi a mesma.<br><br>Nesta casa tive também uma experiência bastante estranha. Uma tarde estava novamente brincando perto da janela da sala que tinha venezianas quando uma delas quase pegou minha mão na dobradiça. Vi então que uma mão transparente empurrou a janela. Comecei a chamar a minha mãe para ver a ‘mão branca’, mas é claro que ela não chegou a ver coisa alguma. Eu no entanto tenho certeza do que vi e ainda posso ver na minha mente, a mão acabando no pulso, completamente transparente. Meu anjo da guarda? Acredito que não se deve adorar ou chamar anjos, mas creio que eles existem.<br><br>Mudamos da rua Igaratá para a nossa casa nova na Aclimação quando eu tinha sete anos e meu irmãozinho acabara de nascer. Mas essa já é outra história…<br><br>E-mail do autor: [email protected]