Quando nasci, meus pais moravam na Rua Dias de Toledo nº 241, no Bairro da Saúde. Nasci em 1958, portanto quando “me conheci por gente”, como se falava, estávamos nos anos 60.
Naquela época, era um bairro de periferia e o meu endereço era um dos mais pobres. A rua não era asfaltada apesar de contarmos com água encanada e iluminação pública. Na minha rua, não passava o caminhão do lixo e sim a carroça, isso mesmo, era uma carroça e me lembro bem tinha três cavalos puxando, sendo que um deles era muito pequeno. Eu tinha muita pena dele porque percebia que ele tinha que fazer um esforço enorme para ajudar a puxar aquela carroça pesada.
O lixo era deixado em latas parecidas com as latas de tinta de hoje em dia, deixadas pelos moradores sobre os muros da casas, todos muito baixos, os quais os lixeiros pegavam, despejavam na caçamba da carroça e jogavam de volta sobre as calçadas. Não havia sacos de plástico, então o lixo ficava ali, cercado de moscas e muito mau cheiro.
É por isso que os cães de rua até hoje são chamados de vira-latas.
Também me lembro que todos chamavam os funcionários da limpeza de lixeiros e, certa ocasião quando uma mulher da vizinhança chamou a um deles assim ele respondeu:
– Minha senhora, eu não sou lixeiro. Sou coletor de lixo.
Muito digno!
A casa em que eu morava era de aluguel e ficava nos fundos. Para chegar até lá, era preciso passar pelo quintal de outra casa, a qual ficava mais ou menos no meio do terreno porque a parte da frente não tinha construção alguma; só tinha grama, que a família da proprietária das casas usava para “quarar” a roupa e tinha alguns varais também.
Quarar a roupam era assim: para tirar as manchas ou simplesmente para deixar as roupas brancas mais claras, depois que as peças eram lavadas as mulheres colocavam anil ou só um pouco de sabão e estendiam as roupas ainda molhadas sobre a grama, mas era preciso que o dia estivesse ensolarado.
As nossas brincadeiras eram: jogar bola de gude na calçada, que era de terra; pique esconde, mãe da rua, sela, bater figurinhas, jogo de botão, carrinho de rolemã, jogar bola (ou alguma coisa parecida com uma bola porque bola de couro mesmo era muito cara); soltar pipa (na época não chamávamos de pipa e sim de “quadrado”. O quadrados podiam ser de vários tipos: raia, maranhão, barraca, peixinho, capuxeta).
A maioria das pipas que se empinam hoje em dia, eram chamadas de maranhão; tem uma armação composta de cinco lados e um rabo bem comprido, mas os meus preferidos eram as raias. Seria complicado explicar como eram. Eram muito bonitas e para quem não conheceu, só desenhando.
Em resumo, talvez hoje em dia seja impossível encontrar alguma cidade em nosso estado, por menor que seja, em que exista ainda algo parecido com a minha rua na cidade de São Paulo naquela época.