Mirante Sampa Sky – São Paulo (SP) – 04/08/2021 - Mirante Sampa Sky – o mirante localizado no 42º andar do edifício Mirante do Vale, na Rua Pedro Lessa 110, Vale do Anhangabaú, possui vista para a região central, leste e norte. Foto: Jose Cordeiro/SPTuris

Anhangá, Um Pobre Diabo

Duzentas árvores caem durante a noite por obra de um sopro forte insuflado por entre os cânions de concreto. Semáforos enlouquecem. Raios rasgam os céus ameaçando caudais mofinos, orvalhos. O caos do trânsito repete-se à exaustão. Assim como a violência. A virulência. O descaso. O desacato. A intolerância. A indigência. Mas, há ainda algum espaço para o humor, o amor, o abraço.
 
Ônibus ardem feito piras em honra aos deuses pagãos. Gente a transbordar, a entupir as vias intestinas da Megalópole. Gente nas filas. Nos museus. Nos hospitais. Nos terminais de ônibus. Filas da opressão. Filhos da opressão. Encanto e desencanto. Idas e vindas. Encontros e desencontros. Paixões exacerbadas. Medo e fome. Grana. Gana. Gol.
 
E a cidade não pode parar. Voraz engole seus vizinhos, se alastra.
 
No centro velho, fantasmas. O jesuíta de brancas cãs, o cacique valoroso e sua bela filha, os sertanistas intrépidos com sua desmedida ambição assistem a tudo estupefatos. Não assombram ninguém, coitados, antes se assombram.
 
O rio em cujas águas batizaram seus descendentes e por onde avançaram pelos rumos do sertão, esconde-se agora sob avenidas, com vergonha dos seus graus de impureza.
 
Anhangá também já não mostra sua face desde que invadiram o seu refúgio. Quem passa de carro pelo túnel escavado no coração da cidade vai dar bola para um pobre diabo? Ou o ignora como se fosse invisível (embora ele talvez ainda tenha o poder de sê-lo se o quiser); ou o temem. Pois baixam o vidro fumê e aceleram fundo (quando podem acelerar).