Rua da Bica da Freguesia do Ó

Rua da Bica! Que felicidade a conservação do nome! É muito fria a substituição de nomes de flores, fontes, pássaros, por nomes de gente, ainda que haja homenagem merecida.

A Rua da Bica da Freguesia do Ó foi cenário de poesia. Pena não ter talento de poeta!

Começa na Avenida Itaberaba e termina na Avenida Paula Ferreira. É curta como sua glória, já que a Bica e as chácaras do lado direito desapareceram, faz tempo. Hoje, condomínio, empresa, casas, somente. Foi sepultada ainda viva a Biquinha.

No lado esquerdo de quem descia a Rua da Bica, outrora metade rua, metade picada ou trilho, um matagal?!

Com cortinas cerradas, foi palco de fantasmas-tarados que eram apenas um truque de qualquer espírito de porco, para que a criançada da escola primária Padre Manuel da Nóbrega, pela vereda, disparasse numa corrida, graças a Deus, inglória.

Já uma vez, um susto verdadeiro. Um estalo de vidro, no famigerado matagal, fez, mesmo sem malha esportiva, o atletismo dos garotos de oito a dez anos, calças curtas azul-marinho, camisa branca e mala na mão. Porém, a poesia não é esta.

O grupo escolar Padre Manuel da Nóbrega, na esquina da Avenida Itaberaba com a Rua da Bica, tinha três turnos. Das oito às onze horas, os meninos. Das onze às quatorze horas, as meninas (aqui está a poesia da Rua da Bica). Das quatorze às dezessete horas, as crianças do primeiro ano. Alguns, no início do ano, agarravam aos prantos a saia da mãe, enquanto outros, bem poucos, eram arrastados ladeira acima.

Tempo em que a professora primária ia trabalhar de luva de pelica! Quanta elegância! Anos: 1951, 1952, 1953! Prenúncio dos Anos Dourados!

Bem, na pirambeira do início da Rua da Bica – mais polido -, na descida íngreme de paralelepípedos, num equilíbrio perfeito, as meninas de avental branco, muito engomado, laçado na cintura, formavam uma ciranda sem fim e cantavam sem cansaço: "lá vem sô Juca, ca, de perna torta, ta… dançando valsa, as, com a Maricota, ta". E mais, e mais…

E os moleques antegozando a proximidade do final da aula, e uns com a tabuinha na mão, licença para ir ao banheiro. Da sacada dele, espiavam as brancas cigarras barulhentas.

De tudo isso, ainda bem, restam o prédio da escola e o bar em frente.

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