Rua Canuto do Val, em Santa Cecília

Ah! a rua Canuto do Val, quanta saudade de um tempo que se podia brincar nas calçadas e o único medo que tínhamos era de encontrar um bêbado pela frente.
Eu morei durante muitos anos no nº44, apto. 2, num prédio de 3 andares e que era muito gostoso. A gente tinha amizade com todos os moradores e de lá tenho muitas saudades.
Foi lá que um dia meu pai juntou todas as crianças e nos levou de táxi para conhecermos o Parque do Ibirapuera, que na época de atração só tinha muitos brinquedos, como roda gigante, trem fantasma, etc.
Passamos a tarde toda brincando.
Lembro do Sr. Julio, um senhor gordo e alegre, que tinha um Chevrolet verde e morava numa casa em frente ao prédio. Ele tinha dois filhos, Julinho e Luiz.
Lembro também da Tati, uma menina filha única e que tinha a garagem cheia de brinquedos, que para nós eram o grande encantamento. Ela tinha fogãozinho elétrico, que funcionava e fazíamos bolinhos de verdade. Tinha também uma caixa registradora, que abria a gaveta e tinha dinheiro de mentira.
Nossa que legal! Eu adorava brincar com ela. Se não me engano, lá também tinha um cãozinho, chamado Biriba.
No prédio também tínhamos muitos amiguinhos; O Zé Eduardo, a Caía que era a Clara Maria, cujo o pai – Sr José era muito bravo e o Paulo que morava no apto. 1.
Ainda me recordo que fomos os primeiros a ter TV e que cobrávamos ingresso, um papelzinho. Minha mãe fazia Pãezinhos de Minuto que a gente devorava.
Naquela época eu já queria ser secretária. Colocava os garfos numa mesa e batia neles como se fossem de uma máquina de escrever.
Adorava ter muitos "filhos" e só saía com todos eles.
No corredor de casa, tínhamos uma passadeira, que na minha mente era a rua. Alí eu, carregada de filhos, esperava o carro imaginário passar e atravessava a "rua".
Eu estudei no Grupo Escolar Arthur Guimarães, que fica ainda na rua Jaguaribe. Lá conheci professoras de verdade. Ainda me lembro que a do 1° ano era dona Sofia, a do 2 Dona Maria Tereza, que tinha problemas de estômago e de lanche trazia um pedaço grande de queijo de Minas, que punha água na boca da gente. A do 3° Dona Eliza Nair Cardozo Perón, um amor de pessoa. Nos meus aniversários ela sempre me dava presentes e tenho até hoje um livrinho que ela me deu, com dedicatória e tudo. A filha dela, Matilde, as vezes vinha brincar com a nossa turminha. A do 4º ano – Dona Eleonor, que morava na rua Dona Veridiana e que faleceu pouco tempo depois. Acho que foi a primeira vez que vi uma pessoa morta.
Na época de junho fazíamos fogueira na porta e brincávamos muito, sempre aos olhos do Sr. Julio. Ele nos levava num campinho, para soltarmos balões.
Naquela época criança era criança mesmo. Não tínhamos nada parecido com o computador de hoje e as brincadeiras eram com tico-tico, esconde-esconde e bola.
Tive uma infância muito feliz.
Ainda me recordo que na véspera de Natal, minha mãe, dona Aída, nos vestia, eu e minhas duas irmãs, Maria Lígia e Maria Izabel, com os melhores vestidos brancos, e nos punha laços nos cabelos. Com a casa toda cheirando a Natal, ficávamos esperando os parentes. A tia Milóca sempre trazia torta de nozes e um bolo americano, cujas receitas herdei e as faço até hoje.
Lembro também que o nosso "Papai Noel" saía à noite para comprar nossos presentes na Clipper. No dia de Natal procurávamos embaixo das camas.
Sinto até hoje o cheirinho de talco Johnson do bebê que ganhei, que vinha com a amostra na caixa. Esse boneco me acompanhou por muitos anos da minha vida. Tinha enxoval de bebê de verdade e não viajava nas férias sem ele e a respectiva malinha.
Enfim, tempinho bom, que não esqueço jamais….