Anos 40, São Paulo, dos tempos dos bondes, dos trilhos nos paralelepípedos, dos cobradores acrobatas e dos jovens clientes, quase circenses.
Tinha eu pouco mais de quatorze anos. Estudava no Liceu Rio Branco, na rua Dr.Vilanova, e como todo estudante, com pouco dinheiro, ou voltava a pé do colégio ou de bonde.
Morava nas Perdizes, na rua João Ramalho, que cortava a Cardoso de Almeida, por onde transitava o bonde, de laterais abertas. Normalmente preferíamos os estribos externos, agarrados nos balaustres, por onde também caminhavam, lentamente, os cobradores uniformizados, sisudos-quarentões.
Nós jovens, espertos, felinos, rápidos, quando podiam driblavam os cobradores, para não pagar as passagens, cujo dinheiro – o pouco – havia sido gasto na cantina do colégio.Ou no bilhar da esquina.
Quando, então, éramos surpreendidos na hora da cobrança, não restando mais nenhum "drible", só nos restava ser mais "circense" que o cobrador. Pulávamos, de costas, com o bonde a 30 quilômetros por hora, onde ele estivesse.
Assim, nasciam os primeiros estudantes "malabaristas" de São Paulo, após, claro, muitos tombos. Éramos sempre vencedores, pois o cobrador era um só para um contingente de muitos caloteiros.
Aliás, a cada dia escalávamos um estudante "coelho" para ser perseguido pelo velho cobrador, livrando do pagamento da passagem os demais. No fim da linha, a gente rateava a passagem do "coelho".
Coisa de criança, sim. Mas sem dinheiro suficiente para pagar a passagem do dia-a-dia. Conhecidos do quase mesmo cobrador, acabava ele – cansado que ficava – fazendo vistas grossas, de nossa presença, para evitar mais uma corrida sem sucesso, atrás dos "jovens voadores e suas acrobacias maravilhosas".
Como tudo acontecia quase sempre no mesmo horário de volta da escola, passamos a contar com a simpatia dos passageiros, daquele percurso, de meia hora, entre Higianópolis e Perdizes. Percebia-se, que muitos deles tinham sido, nos anos trinta, vinte, também estudantes-passageiros. Mas a diferença era grande. Os bondes da época eram lentos demais, cujas acrobacias, se houvessem, graça nenhuma teriam.
Hoje, sem bonde, São Paulo não repete, pelo seu caótico trânsito, aquela saudosa nostalgia. Nem nós, aos setenta anos, temos um bonde, mesmo que seja somente para olhar, ver e sentir. O do museu, não vale.
Por isso tudo, amor, lembranças iguais, somente São Paulo querida foi capaz de proporcionar. Mesmo agora no século XXI, pode-se respirar a cidade, cujos encantos estão ainda por muitos lugares.
São Paulo, a cidade que desafia e encanta, a qualquer tempo.
A propósito muitos leitores desta história viveram situações semelhantes. Puxa, como gostaria que os "velhinhos-acrobatas" dos bondes e das acrobacias do nosso tempo, fizessem contato, se vivo, estiverem, é claro. Sessão espírita, não vale.
Se existimos, endereços temos: [email protected].