Rua Anchieta, 757, Santo Amaro. Este endereço e as histórias da minha infância se misturam e se confundem. Vamos passear no jardim, mamãe? Sim, querida filhinha, no final da semana iremos passear na Rua Direita, sentar no jardim da Prefeitura e ouvir as músicas executadas pela banda de Santo Amaro, no coreto da praça. E a rotina simples e fácil de desenrolar continuava: leiteiro e padeiro com suas carroças tocavam sinos ao amanhecer e todos corriam para receber aquelas delícias caseiras.
As crianças estudavam nos Colégios Doze de Outubro, Jesus Maria José ou Alberto Conte; neste último, somente tinham acesso os "crânios". Minhas irmãs Ivani e Susely e eu estudávamos no Colégio Jesus Maria José. Nosso pai assim preferiu, isto é, que freqüentássemos colégio feminino e de freiras. Lá, as orações eram constantes e as idas à capela quase que diárias. Aprendi que, quanto maior o número de indulgências, mais certo seria o meu lugar no céu. Por isso, nos finais de semana, quase sempre batia o recorde de indulgências (as proferia até na matinê do Cinemar).
Andávamos a pé a todos os lugares. Gostava do pão doce de coco da Padaria XV e tornou-se uma espécie de grife no colégio levar esse famoso pão de coco na lancheira. E lá ia meu avô Bachir, da Rua Anchieta ao Largo Treze, para comprar o famoso pão. Também era uma espécie de moda comprar meias e demais roupas escolares na loja do Sr. Walter Kivi, na Rua Direita, bem como material escolar na Casa Barroso. Aliás, Lidia Kivi era minha colega de classe que, pelo pai ser o dono da loja, era muito considerada por mim e por todos, isto é, todas – o JMJ era exclusivamente feminino.
Já mocinha, íamos às Lojas Jurucê para comprar roupas e Casa Eduardo para sapatos. As freiras e professoras do colégio representavam, para mim, tudo que era de correto, preciso, honesto, seguro e fonte de conhecimento. Assim sendo, recordo-me ainda hoje de alguns nomes e de suas fisionomias também. Desde a irmã Loretto, do jardim da infãncia, às demais, como Irmã Ressurreição, Madre Geral, Irmã Letícia, Irmã Madalena, Irmã Aparecida, Madre Santos, Irmã Inês, Madre Amábile e as professoras leigas como a Dona Darci, Dona Clarinha, Dona Hermínia, prof. Demóstenes, Dona Ondina e, principalmente, Maria Alice, que me influenciou, valorizando meus trabalhos, na futura carreira de professora de Português/Inglês.
Dentre as queridas colegas, vou relembrar aqui da Elza Guerra, filha do mestre escultor Julio Guerra, a quem devo a honra de ter visto a construção de algumas partes da famosa estátua do Borba Gato e, várias vezes assustadas, perguntávamos ao Seu Júlio: “Por que esse nariz tão grande? Por que essa mão enorme?”. Dentre outros questionamentos infantis.
Também deixo registrada aqui a lembrança da querida Lurdinha, da Casa Otelo. Com ela, estudei as capitais do mundo, decorávamos andando no corredor de fora da minha casa na Rua Anchieta; somente interrompíamos a decoreba para ver a boiada passar em direção ao matadouro de Santo Amaro, ou quando íamos até a Padaria De Lucia comprar pão quentinho para o lanche.
Lá fora, a carroça vendendo as uvas do marengo, as crianças brincando de bater lata e correndo na guia da calçada, na enxurrada de dezembro, nas límpidas águas que escorriam pelas pedras da Rua Anchieta…
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