Rua 7 de Abril, em pleno 64

Por estes dias, revi um amigo de quarenta anos atrás. Lembrei-me dele, depois de tanto tempo, e procurando na lista telefonica on-line, lá estava seu número. Imagine-se seu espanto, ao escutar-me.

Conheci-o na primeira grande agência de propaganda em que trabalhei, na R.7 de Abril, prédio dos Diários Associados. A firma tinha, e ainda tem, grandes contas internacionais, poucas emergências, e sobrava tempo para brincadeiras e gozações, em pleno expediente.
Numa das vezes, o pessoal preparou aviões de papel, carregando bombinhas acesas.

Um dêsses projetís, ao invés de atravessar a 7 de Abril, rumo a um alvo mais distante, fez meia volta e entrou pela janela do andar de baixo, na sala de um contato. E lá explodiu, como um Exocet.
Outra vez, uma bandinha estacionou defronte ao prédio, tocando mal e porcamente.
Meu amigo reuniu a turma do estúdio, que, com os potes de água, usados para lavar pinceis, deu um banho na "Furiosa" (literalmente).

Em outro caso, não foi brincadeira: um ventilador de parede explodiu junto a um janelão, levantou vôo, e como um helicóptero suicida atingiu a testa de um pobre transeunte, que,furioso, subiu para reclamar.
O pior é que êle já tinha sofrido uma trepanação, e por muita sorte não teve a segunda.

Apesar do nosso bom humor, nem tudo eram flôres, na 7 de Abril. Aconteceu o golpe de 1 de Abril, e logo a rua foi inundada por marchas militares, rufar de tambores, clarins e pregações bombásticas. Hinos e orações, em tons cada vez mais histéricos.

E, desta vez, nem dava para jogar água neles. Logo se instalou ali o comitê do "Dê ouro para o Bem do Brasil", e vi muita gente posuda da agência, entregando seu anel, num verdadeiro "beija-mão" dos militares. Como no tempo dos imperadores.

A diferença é que o anel era o do povo, que o deu de mão beijada, e nunca mais teve notícia dêsse bem, levado pelos ladrões de plantão. Quanto ao dito "Bem do Brasil", todo mundo viu no que deu.

Tempos depois saí da agência, e , por muitos anos, não o vi nem mais soube dêste meu amigo.

Quarenta anos depois, estou no Garabed, famosa mas oculta esfiharia de Santana, aguardandoo Valnir, êste o seu nome. Fui até lá, tão longe de casa, para facilitar-lhe as coisas, pois nesta idade, não se sabe quem ainda está em boa forma. E meu amigo sempre morou na zona norte.

Mesmo morador da região, êle demorou-se, pois havia se perdido pelas estreitas ladeiras.
Finalmente, surge à porta, encanecido e mais baixinho ainda do que já fôra, mas reconheci-o imediatamente.Tratamos de colocar o papo em dia.
Quantas emoções,quantas lembranças passadas, quantos dramas se haviam desenrolado. Havíamos sobrevivido a tudo, e ali estávamos, ainda firmes e garbosos. Falamos e falamos, relembramos vivos e mortos. E assim continuaríamos,se o restaurante não estivesse pra fechar, às 4 da tarde.

Numa cidade como esta, onde cada um luta duramente para cuidar de si e dos seus, com imensas distâncias, todas repletas de trânsito enlouquecedor,ainda assim há lugar para reencontros agradáveis.Em segundos, todo o tempo e o espaço se reduz a zero,como se não tivesse existido. Basta um pouco de boa vontade.