Amores chegam, partem, deixam saudades, belas ou amargas lembranças, marcando nossas vidas; porém, o amor que conto neste texto é um amor diferente, que foi plantado antes mesmo do nascimento de Rosa.<br><br>O avô de Rosa, artesão especialista em mármores vindo da Província de Salermo, Itália, chegou a São Paulo no final do século XIX e foi contratado para trabalhar na construção do Theatro Municipal de São Paulo.<br><br>Após um episódio onde demonstrou grande responsabilidade e amor ao teatro, o avô de Rosa foi convidado por Ramos de Azevedo para ser o guardião do teatro após a sua inauguração, em 1911.<br><br>Posteriormente, o pai de Rosa tomou o lugar de seu avô e passou a exercer a função de zelador e, em seguida, a função de conservador do Theatro, residindo com a família no quinto andar do prédio do teatro.<br><br>Assim, em 1926, Rosa nasceu na residência da família (Theatro Municipal de São Paulo), pois era comum os partos serem feitos nas casas, por parteiras.<br><br>A criação e a educação de Rosa foram diferenciadas em relação às demais crianças de sua época. Ela corria, brincava e fazia travessuras típicas das crianças no interior do teatro desvendando e conhecendo os seus mais minuciosos detalhes, passando a respeitá-lo, admirá-lo e amá-lo como parte de si própria.<br><br>Rosa vivenciou intensamente a cultura e a arte paulistanas. Aprendeu piano e artes, conheceu e conviveu com artistas nacionais e mundialmente famosos, cantores de ópera, maestros, atores e atrizes dos mais variados tipos de peças que deixaram lembranças em sua memória e em fotos autografadas, as quais ela guarda com todo cuidado e carinho.<br><br>Acompanhou todas as mudanças ocorridas com o passar dos anos na região e presenciou todas as reformas e restaurações do prédio.<br><br>Passou a monitorar visitas de grupos de turistas onde, com grande orgulho, mostrava e transmitia informações com a jovialidade de uma garotinha apaixonada.<br><br>Atualmente o teatro está em reformas novamente. Será um novo recomeço para o mais importante "templo da arte e cultura" desta cidade e Rosa está ali, zelando por ele, agora do lado de fora. E assim, a conheci numa tarde no final de dezembro.<br><br>Ao passar pelo local, reduzi o ritmo de meus passos para ouvir lindas músicas brasileiras cantadas por um jovem de cadeira de rodas, o qual atraía centenas de pessoas que transitavam em frente ao antigo Mappin. A voz do jovem cantor poderia ser comparada às melhores vozes conhecidas nacionalmente e o repertório eclético fora criteriosamente escolhido demonstrando extremo bom gosto.<br><br>Enquanto ouvia as músicas e observava as mudanças ocorridas na área externa do teatro, chamou-me a atenção, há uns 30 metros dali, uma mulher de cabelos bem brancos e brilhantes, solitária e sentada num banquinho desmontável à sombra de uma pequena árvore. Parecia vender algo.<br><br>Aproximei-me e comecei a conversar com aquela simpática senhora levemente maquiada e elegantemente vestida de vermelho. Ao lado, uma pilha de livros de sua autoria sobre a história do Theatro Municipal.<br><br>Rosa gosta de falar sobre as histórias ocorridas no teatro e, quando começa a contar, consegue sorrir com o olhar, coisa típica dos jovens apaixonados.<br><br>O encanto daquele momento era quebrado somente por lampejos de luz, consequência do reflexo do sol que insistia em tocar as pedras do lindo broche na lapela de blazer vermelho de Rosa.<br><br>Ali, numa tarde quente de verão, conheci muito sobre a antiga São Paulo, sobre seu teatro mais importante e imponente e sobre como uma pessoa pode mover obstáculos para valorizar a cultura, a arte e a história de forma tão apaixonada.<br><br>Comprei um exemplar que ela fez questão de autografar e, com certeza, foi uma das minhas melhores aquisições, pois, além da história, traz um contagiante conteúdo emocional e fotos inéditas que fazem parte do acervo pessoal da autora.<br><br>Acredito que Rosa vá todas as tardes àquele local, não somente para vender seus livros, divulgar a cultura e o patrimônio histórico, mas também para estar ao lado de seu grande e eterno amor: o Theatro Municipal de São Paulo.<br><br>Esta é mais uma personagem da cidade de São Paulo com sua história de vida e de amor por um dos mais preciosos patrimônios desta cidade. Personagens com esta passam por nós diariamente e, ao pararmos um pouco, descobrimos mais sobre a cidade e, por que não dizer, sobre a vida.<br><br>Que Rosa e o Theatro Municipal de São Paulo vivam esse contagiante amor eternamente… Que nós possamos aprender com amores como esse e valorizar o patrimônio histórico da cidade e nos permitamos se deixar apaixonar por Rosas e seus theatros.<br><br>E-mail: [email protected]