Contar histórias, para mim, é como mexer num baú colorido com cheiro de saudade. Faz-me, sentada à frente do meu teclado, viajar com pessoas, sentir os acontecimentos, agora como expectadora, poder compartilhar e dividir sensações que estavam acomodadas, só esperando que um dia, assim como fez minha mãe com seus filhos, contar e perceber que vivemos um sonho e que hoje somos a realidade daqueles acontecimentos.
Sendo assim, quero partilhar mais uma memória. Revendo fotos antigas deste site, deparei com uma foto da Represa de Guarapiranga em 1934, e fiquei maravilhada em poder finalmente dar vida aos causos que ela nos contava e que eu tinha dificuldade de imaginá-la, já que o meu parâmetro era o de hoje, pobre e feiosa margem mal explorada e conservada da nossa Represa de Guarapiranga.
Minha mãe contava que nos finais de semana iam em grupo, fossem familiares ou de amigos. Trajavam roupas elaboradas, tinham como paisagem a belíssima represa ao fundo, com barcos a vela, botes pequenos para passeios tranquilos. À margem, as pessoas eram servidas em mesas coloridas, com refrescos e lanches rápidos.
Os namoros eram muitas vezes iniciados ou fortalecidos à margem daquela represa, com ares de Riviera, aliás, assim era identificada. Bandeirolas coloridas, a criançada em seus maiôs inteiros e touca, afinal, era o traje do local. As moças também trajando seus belos maiôs, dando importância às suas curvas ou, para as mais modernas, o de duas peças, que deixava um palmo entre a parte de cima e a de baixo; o corpo da beldade de fora.
Lindos chapéus a proteger a cútis, totalmente exposta aos raios solares, já que os protetores são cosméticos atuais. Óculos de lentes bem escuras eram os protetores exigidos para os dias ensolarados ou não.
Infelizmente, a Represa marcou minha família de forma mais triste. Contava minha mãe que um de seus irmãos, meu tio, ao ajudar no salvamento de um dos parentes que se afogava na Represa, acabou perdendo sua jovem vida. Minha avó, já mais velha, dizia em forma de lamento que a pior dor sentida por um ser humano, com certeza, é a perda de um filho. Mas mesmo assim, admirando aquela foto da elegância reinante na Represa de Santo Amaro em 1934, pude ver meus antepassados felizes em seus trajes de banho tão elegantes quanto a Riviera de Guarapiranga.