Revolução no Brás

Era o ano de 1964, tínhamos que visitar uma prima de minha mãe no Parque Dom Pedro. Chegamos por volta das 14h, era um dia nublado e havia boatos de uma revolução a caminho, mas assim mesmo fomos, pegamos o ônibus em frente à Pirani, na Avenida Celso Garcia, ao lado da Ducal e assim fomos. Quando era 17h, deram toque de recolher e não pudemos sair da casa em que estávamos, dormimos ouvindo as notícias no rádio, confusão geral.

No outro dia, após almoço, disseram que podíamos ir que estava tudo tranquilo, mas para nossa surpresa cavaleiros e seus cavalos os enxotavam para a calçada e minha mãe teve de brigar com um deles, pois estava com três crianças pequenas e não tinha como correr, foi uma loucura, tinha muito choro no ar e lá fomos nós para o Brás. Chegamos rapidinho, pois as ruas estavam vazias. No Brás aparecia outro mundo, se discutia o toque de recolher, mas também as obras de esgoto que estavam sendo feitas, muitas obras.

Os Castigliones continuaram a fazer o almoço de domingo para os italianos fumarem charutos e tomarem vinho, após, espaguete a bolonhesa com “brajolas”, era uma loucura, discutia-se Vandré ao mesmo tempo que Gil, Caetano e Roberto Carlos. Quando a noite caia, o silêncio era total, comércio parado, seu Lopes vendendo Tubaína pela porta da garagem, discutia-se pouca política e muito futebol, mas mesmo assim um dos Castigliones foi perseguido por ser revolucionário para a época, houve troca de tiros e alguns italianos da época se reuniram para escondê-lo, com medo que todos do Brás fossem perseguidos.

A maior revolução que houve no Brás foi que uns parentes de Jânio Quadros acabaram saindo do bairro, pois não aguentavam as duras palavras e as perseguições que sofreram. O Brás revolucionou com sua humilde musicalidade, tranquilidade e a gaiatice dos italianos que transformavam qualquer problema em alegria, qualquer revolução em abraços e sorrisos, este sempre foi o Brás, sempre receptivo e alegre.