Re(vi)vendo São Paulo

De quando em quando nossas queridas esposas e companheiras resolvem mudar a arrumação da casa. Os sofás são trocados de lugares, o guarda-roupa fica melhor deste lado, a mesa é transferida e o quadro na parede, coitado, mais uma vez muda de domicílio, e assim por diante. Aproveitam para uma faxina geral e dão fim a muitas velharias imprestáveis para melhor aproveitamento de espaços.

Numa dessas empreitadas, minha mulher interrompe a leitura de meu jornal e, com um álbum de fotografias nas mãos, me pergunta: "Amore, o que faremos com isto?". Num relance tomei-o de suas mãos antes que fosse tarde. Era um velho álbum dos tempos de solteiro que há muito tempo não via. Lá estava eu: sozinho, com os amigos, com as amigas, em esmaecidas fotos em preto e branco, tiradas com aquelas antigas máquinas de "caixão", fixadas com cantoneiras (lembram-se?), tudo caprichosamente arrumado, com alguns espaços em branco, somente com as tristes e solitárias cantoneiras. Fiquei intrigado. Que imagens estariam ali? Onde e quando foram tiradas? Quem as retirou? Indagações que ficaram sem respostas.

Revendo as fotos, a imaginação correu solta e revisitei o Viaduto do Chá, o Museu do Ipiranga, o Teatro Municipal, o estádio do Pacaembu, a Biblioteca Mário de Andrade, a Rua São Luís e tantos outros lugares que já estavam perdidos numa gaveta qualquer da memória. Revi antigos amigos, sorridentes, jovens, confiantes na vida. Com alguns ainda me relaciono esporadicamente, de outros jamais tive notícias. Onde estarão, o que foi feito de seus sonhos? Mario Quintana diz muito sabiamente: "Com o tempo, não vamos ficando sozinhos apenas pelos que se foram; vamos ficando sozinhos uns dos outros".

Tristeza, saudade, nostalgia, dor, alegria, tudo isso nos traz um velho álbum de fotografias. O que você está esperando? Busque o seu, que deve estar desamparado, esquecido, abandonado numa estante ou num velho e descorado baú. Revire a casa, encontre-o. Depois, sente-se, prepare seu coração e embarque nessa gostosa e, às vezes, imprevisível viagem. Vale a pena! Afinal, recordar é viver! Ou reviver?

PS – Curiosidade: Como muitas dessas fotos foram tiradas em lugares públicos percebe-se no fundo das mesmas o cuidado com que as pessoas se trajavam, quase sempre de terno e engravatadas, limpas. Sem chapéus, já fora de moda, para desgosto das indústrias Cury, Prada e Ramenzoni…

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