Réquiem ipiranguista ou "tombando o tombado"

O ato administrativo de tombamento recebe este nome devido ao fato de o verbo tombar ser sinônimo de registrar, inscrever, o que, por sua vez, liga-se ao fato de que em Portugal os documentos registrados do Estado eram guardados na Torre do Tombo.

Em São Paulo, no entanto, parece que o verbo tombar é sempre conjugado no sentido mais estreito possível, qual seja o de derrubar. Demolindo seu passado, São Paulo constrói uma cidade sem memória.

O mais grave é quando um imóvel de interesse histórico, nada obstante ter sido tombado, é tombado literalmente, a marretadas.

A área envoltória do Museu do Ipiranga é tombada, o que abrange boa parte das Avenidas Dom Pedro e Nazaré e da Rua Bom Pastor. Além da festejada isenção de IPTU, os proprietários de imóveis na região têm o dever de manutenção da fachada original, de modo a não alterar o já maltratado entorno do Conjunto do Ipiranga (monumento, parque e museu).

Esta é a teoria, muito bem descrita na legislação municipal. Agora vamos à prática: estava abastecendo o carro no posto de gasolina da Dom Pedro com Leandro de Carvalho, quando avistei um enorme caminhão amarelo transitando pela avenida. Carregava uma retroescavadeira. Saí do posto e percebi que o mesmo estava estacionado em frente a um dos casarões da avenida. Um que estava à venda até pouco tempo atrás.

Aliás, sempre que passava ali dizia que se tivesse muito dinheiro, eu o compraria e restauraria totalmente. Lembrando do estado decrépito que se encontrava, imaginei (a ingenuidade nunca me favorece) que se tratava justamente de uma reforma ou até restauração por algum endinheirado, afinal, qualquer alteração estava vedada pelo município de São Paulo.

Quase bati o carro quando torci o pescoço e pude notar que metade do antigo (e belíssimo) casarão já fazia parte de meu rol de lembranças. A nova realidade virá logo, tenho certeza. Provavelmente será mantida parte do casarão, o que não impedirá sua absoluta descaracterização, algo que já aconteceu com quase todas as casas da avenida. Em uma delas funciona um buffet infantil, cuja fachada tem um trem espacial psicodélico dando boas vindas ao trecho mais emblemático da história de nosso país.

O casarão fica (va) na esquina da Dom Pedro com a Rua Guaxinduva, logo ao lado do Edifício Cálux.

É triste imaginar o que a região do parque da independência poderia ser. Ao lado do belo conjunto arquitetônico, dando-lhe boas vindas, avenidas largas repletas de casarões antigos restaurados. Tudo muito preservado, afinal, o local é histórico.

Parafraseando Manuel Bandeira, é a cidade que poderia ter sido, mas não foi, e nem é. No entanto, não perdi as esperanças de que um dia ainda "seja". Afinal, lentamente a população e a administração pública vêm percebendo a importância da preservação arquitetônica e histórica. O centro hoje é preservadíssimo perto do que conheci quando criança (início dos anos 90). Nenhum governante de hoje ousaria sequer cogitar a demolição de um palacete como o Santa Helena. Ao menos assim espero.

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