Reminiscências Paulistanas

Nos primórdios de nossa infância, nos idos da década de cinquenta, para São Paulo nos mudamos, para a região de Santo Amaro, mais precisamente na Parada Petrópolis – Brooklin. Assim que nos instalamos no casarão que iríamos morar pelos próximos anos, meu pai retornou à fazenda em que nascemos em Pongaí e trouxe os nossos animais de estimação, pois sentíamos muita falta deles:

Rex – nosso primeiro cachorro;
Louro – papagaio que falava palavrões, de minha mãe;
Canarinho Amarelo – canário da terra, de meu irmão;
Vagareza – minha tartaruga;
Joãozinho – gato de pelugem negra, também de minha mãe;
Malhado – cavalo preferido de meu pai, mas esse lá ficou.

Como havia bastante espaço no casarão foi fácil acomodá-los. Louro e Joãozinho eram tratados como reis, principalmente o segundo, o qual minha mãe, às vezes, colocava na cama para dormirem juntos e de manhã era servido na cozinha com um "lauto desjejum" que até inveja nos causava. Coitado de quem ousasse por a mão nele!

Certa ocasião, Joãozinho sumiu e foi um alvoroço! Toda a garotada procurando-o, pois minha mãe havia prometido uma gratificação a quem o encontrasse. Vários dias se passaram e nada dele aparecer.

Eis que, quando menos se esperava, um vizinho que residia um pouco distante de nossa casa aparece com ele no colo, dizendo que o mesmo fecundou a gata dele, a qual teve quatro filhotinhos. Disse também que se não o trouxesse, o mesmo poderia devorar os filhotes. Se tal fato é verdade não sei, mas o importante é que nunca vi minha mãe tão feliz ao vê-lo, creio que até mais que nós, seus filhos ou meu pai, se tivéssemos sumido…

Tempos depois, Joãozinho sumiu de vez e certa ocasião, quase na época de carnaval, Ditão (um mulato magro e sambista) aparece com um pandeiro ou algo parecido, no Empório (Casarão) feito com a pele de um animal, de cor negra e batucando. Pronto!
Ninguém tirou da cabeça da minha mãe que ele roubou o Joãzinho para fazer com a pele dele um pandeiro.

Minha Mãe o inquiriu, como se uma policial fosse, e foi tão incisiva que o Ditão achou por bem sumir rapidamente e por um bom tempo e só voltar depois da quarta-feira de cinzas… Sem o pandeiro…

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