Reminiscências da cidade grande

Passei minha infância numa fazenda. Eu era a mais velha de sete irmãos e minhas vindas à São Paulo se tornaram inesquecíveis porque, por serem raras, tinham um quê de espera, de ansiedade e de novidade.

Nos anos 50, numa fazenda do interior, para se falar no telefone era uma "áfrica". Logo cedo já se pedia à telefonista para fazer a ligação, que ficaria pronta só na hora do jantar. Meus pais, muito moços e sociáveis, ficavam meio isolados. Então, quando vínhamos para São Paulo, geralmente para os partos de minha mãe, era uma romaria de visitas, parentes, primos, tios e tias que, por não termos o convívio, se tornaram muito mais importantes na minha memória afetiva.

Eu tenho nítida na minha memória a esquina da Alameda Jaú com Padre João Manoel, era a senha "chegamos"! A casa de meus avós era preparada para nos receber. Teve um ano que minha querida tia Regina desenhou, com giz de cera, a Branca de Neve e os sete anões na parede do quarto das crianças. Isso cinqüenta anos antes de virar moda.

Lembro-me nitidamente da casa enorme e cheia de roseiras do Horácio Sabino, onde mais tarde construíram o Conjunto Nacional. O mural de azulejos da Sabesp da Alameda Santos continua lá, no caminho para o parque Trianon, onde íamos todos os dias levados pelo Zé da Babá.

Só que hoje é tão mais perto… Será que era por isso que minha avó dizia que íamos visitar nossos primos, os bicho preguiça? Que raiva que me dava ouvir isso de uma avó tão querida, a que me levava passear na Rua Augusta, de tantas e tantas lembranças, que vão ficar para um outro dia, porque lembranças dessa cidade tão grande e fascinante tenho tantas e tantas que mal cabem dentro de mim.