Recordações de um aluno interno do Colégio Arquidiocesano de São Paulo, 1947

"Querida vovozinha,

Escrevo-lhe hoje, sábado, porque o estudo da noite é livre. Aproveito a folga para contar à senhora a minha vida no Colégio Arquidiocesano de São Paulo.

Como a senhora sabe, estou na divisão dos menores. O Irmão regente não está para brincadeiras, mas é muito bonzinho. Eu sou chaveiro. Abro a porta do estudo. É bom porque assim não devo andar na fila.

O pior é levantar cedo: quinze para seis. Porém, eu o faço com gosto, porque devo estudar muito para os exames que aí vêm. Tomo banho morno e escovo os dentes como a senhora mandou.

Depois temos a missa. Gosto muito da capela. Amanhã vou comungar, e rezarei para todos os de casa. A senhora sabe que sou Cruzado: tenho uma bonita fita amarela. Durante a missa vou cantar junto ao órgão.

O café é logo depois. Acabei o bolo que a senhora mandou. Distribuí para todos os da mesa, pois o Irmão da Cruzada diz que se é mais feliz quando se agrada aos outros.

Ontem tivemos ginástica. Temos três vezes por semana. É formidável. O instrutor inventa cada brincadeira, e gosto muito. Estou ficando grande. Já tenho um metro e 35 e peso 28 quilos. Medimos outro dia na enfermaria.

Para o ano, quero ver se o Irmão regente me põe no 1º Quadro de futebol. Eu jogo no 2º.

Hoje fiz uma composição. Descrevi o dia de anos do Juquinha. Como vai ele? Não esqueça de vir me buscar para a festa deste ano. Talvez o Irmão reitor deixe.

Na aula de geografia é que não tive sorte. A composição não me deixou tempo, e não soube mostrar o trópico de Capricórnio. Agora sei. No recreio do almoço tive que estudar a lição. Foi bom porque choveu, e não houve jogo.

Quinta-feira passada dei uma volta pelo colégio. Foi quando voltava da enfermaria. Passei junto ao laboratório. O pessoal do 3º colegial fazia experiências. Mais tarde também farei.

Ao lado é o museu. É muito gozado. Tem bichos bonitos e caveiras muito feias. Entrei na biblioteca do Irmão Amâncio. Ele gosta de mim porque foi professor do papai. Eu jogo também pingue-pongue e bilhar japonês. As outras divisões têm, de verdade, com bolas.

Também estudo piano. Ontem levei um pito do mestre porque estava tocando com um dedo só.

Já contei para a senhora como gosto do cinema do colégio. Temos todas as 4as feiras. Também temos teatro.

Há quinze dias tivemos mágica. Eu fui ao palco e segurei um chapéu em que o mágico fez um lenço botar meia dúzia de ovos.

Adeus, vovó. Já bateu para a janta. São 7 horas. Sonharei com o Juquinha. Para o ano ele estará aqui comigo, se Deus quiser.

Um beijinho, de seu querido Carlinhos."

Essa carta foi publicada na revista Ecos, do Colégio Arquidiocesano de São Paulo, de 1947.

Para ver fotos históricas no colégio acesse a página:
www.marista.org.br/memorialarqui

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